O vídeo produzido pela Comissão Pró-Índio de São Paulo reúne múltiplas vozes de distintos povos indígenas, traz experiências concretas de políticas públicas que vêm contribuindo para efetivar os direitos individuais e coletivos dos índios que vivem em contextos urbanos.
Índios das cidades de Manaus, Boa Vista, Campo Grande, São Paulo, Osasco, Curitiba e Porto Alegre dão seu depoimento sobre os desafios de viver no contexto urbano. As lideranças indígenas relatam também as conquistas em termos de políticas públicas.
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sexta-feira, 9 de agosto de 2013
quinta-feira, 18 de julho de 2013
Urgente: golpe parlamentar contra direitos indígenas é grave ameaça à Constituição
Márcio Santilli*
15/07/2013
A manobra urdida no “colégio de líderes” da Câmara dos Deputados, na semana passada, e que ainda poderá se consumar, nesta semana, pretende revogar, sem qualquer discussão, o capítulo “Dos Índios” da Constituição brasileira. Trata-se de um requerimento para se votar, em regime de urgência, um projeto de lei complementar (PLP) que permite legalizar latifúndios, implantar assentamentos de reforma agrária, abrir estradas, construir hidrelétricas e cidades, explorar minérios e outros recursos naturais em terras indígenas (saiba mais).
O parágrafo 6º do artigo 231 da Constituição prevê a edição de uma lei complementar para regular as situações extremas em que o “relevante interesse público da União” imponha a exceção ao direito dos índios de usar, de forma exclusiva, seu território. Pois o projeto de lei em foco pretende travestir o interesse de proprietários de terra e de outros grupos econômicos em interesse público do próprio Estado.
Mas, se é que é possível, a aberração no processo legislativo em curso é ainda mais grave que o conteúdo de verdadeiro estupro aos direitos constitucionais dos índios. O tal PLP, de número 227/2012, havia sido aprovado na manhã da última quarta-feira pela Comissão de Agricultura e, no começo da tarde, já havia um requerimento assinado por vários líderes de partidos que, provavelmente, não leram o que assinaram. A comissão piorou um projeto oligárquico de autoria do deputado Homero Pereira (PSD-MT) e relatado pelo deputado Moreira Mendes (PSD-RO), ambos fazendeiros e membros da bancada ruralista.
O mais incrível é que a obra corporativista e inconstitucional da Comissão de Agricultura recebeu apoio de partidos políticos, foi avalizada pelo presidente da Câmara, deputado Henrique Alves (PMDB-RN), e pelo líder do governo, deputado Arlindo Chinaglia (PT-SP), para que fosse imediatamente votada em plenário, sem qualquer discussão, sem a análise de quaisquer outras comissões e, pelo jeito, sequer com leitura! Como é possível aceitar que a Câmara altere o sentido da Constituição, em horas, por meio de um subterfúgio legislativo?
Henrique Alves tem uma dívida ética, pois, ao avalizar a manobra espúria, rompeu o acordo público feito com representantes dos povos indígenas, que haviam ocupado o plenário da Câmara em abril, após a ameaça de instalação de uma Comissão Especial para emendar o artigo 231 e paralisar a demarcação de terras no Congresso. Alves havia constituído uma comissão de negociação que deveria decidir sobre o encaminhamento de proposições legislativas de interesse dos índios. Assim mesmo, decidiu-se pela traição.
Pior ainda está sendo a falha ética do governo, pois a manobra ocorreu na mesma hora em que a presidente Dilma recebia 20 representantes indígenas no Palácio do Planalto para, supostamente, iniciar um diálogo direto, nunca experimentado em seu mandato. Pouco antes dos índios serem recebidos e o ministro da Justiça, Eduardo Cardozo, conceder entrevista expressando restrições ao PLP, o advogado-geral da União, Luís Adams, e a ministra chefe da Casa Civil, Gleisi Hoffman, orientavam o líder do governo a apoiar o regime de urgência para votar o projeto e rifar os direitos indígenas a toque de caixa. Esta proposta faz parte de um pacote de iniciativas que tem o mesmo objetivo, como a PEC 237, apresentada este ano e que permite a concessão da posse de até 50% de uma terra indígena por produtores rurais.
Observadores da cena perguntam-se se foi a presidente Dilma que tomou uma facada nas costas por parte dos seus próprios ministros, ou se foi ela que a aplicou nas costas dos índios.
Uma
coisa é certa: se a manobra consumar-se, com a aprovação em regime de urgência
do estupro aos direitos dos índios, a presidente e o presidente devem esperar
por uma dura resposta.
Fonte: ISA
Fonte: ISA
quinta-feira, 13 de junho de 2013
A dança das cadeiras na Funai
A recente exoneração da
presidente da Fundação, a antropóloga e demógrafa Marta Azevedo, mostra a luta
em torno da destinação das terras públicas no Brasil
por Henyo Trindade
Barretto Filho
Carta Capital - publicado 11/06/2013
Para quem acompanha a política indigenista, a recente exoneração a
pedido, por motivo de saúde, da antropóloga e demógrafa Marta Azevedo da
Presidência da Funai, não deveria surpreender. Ao longo dos seus quase 46 anos
de existência, a Funai teve 34 presidentes, contando os interinos. É um
presidente a cada um ano e quatro meses aproximadamente.
Uma ONG chegou a cunhar a expressão “galeria da crise permanente” para
se referir à galeria dos presidentes da Funai. Nos oito anos dos dois mandatos
de FHC foram nove presidentes. Lula quebrou essa tendência ao ter apenas três
presidentes em oito anos, dois do quais os mais longevos nessa função. Já a
presidenta Dilma caminha para a terceira presidente em menos de três anos de
mandato, que, assumindo como interina no lugar de Marta Azevedo, já sinaliza a
retomada do ritmo da “galeria da crise permanente”, se aproximando da média
nada honrosa de FHC.
É óbvio que a troca de comando da Funai não é, em si mesma, expressiva –
ainda mais quando se dá por motivo de força maior. Não obstante, o fato da
alternância de comando se dar nessa cadência ao longo de quase toda a história
do órgão – fenômeno de que nos damos conta quando se observam quebras nesse
ritmo – é um indicador significativo da instabilidade institucional que marca a
política indigenista e seu lugar relativamente subalterno em sucessivos
governos – não importa quão populares, inclusivos e democráticos se pintem. Outros
números e estatísticas são ainda mais significativos, pois permitem observar e
correlacionar dimensões não necessariamente visíveis na dança das cadeiras de
comando.
Veja-se, por exemplo, o ritmo – no geral – decrescente de reconhecimento
de Terras Indígenas (TIs) nos sucessivos governos “democráticos” (tabela a
seguir).
Demarcações Terras Indígenas nos últimos governos no Brasil
TIs Declaradas
|
TIs Homologadas
| |||
Presidente
|
Nº*
|
Extensão*
|
Nº*
|
Extensão*
|
Dilma Rousseff (2011-2012)
|
05
|
18.461
|
10
|
972.149
|
Lula (2007-2010)
|
51
|
3.008.845
|
21
|
7.726.053
|
Lula (2003-2006)
|
30
|
10.282.816
|
66
|
11.059.713
|
FHC (1999-2002)
|
60
|
9.033.678
|
31
|
9.699.936
|
FHC (1995-1998)
|
58
|
26.922.172
|
114
|
31.526.966
|
Itamar Franco (1992-1994)
|
39
|
7.241.711
|
16
|
5.432.437
|
Fernando Collor (1990-1992)
|
58
|
25.794.263
|
112
|
26.405.219
|
José Sarney (1985-1990)
|
39
|
9.786.170
|
67
|
14.370.486
|
Fonte: Instituto Socioambiental, abril de 2013
* As colunas não devem ser somadas,
pois várias terras homologadas em um governo foram redefinidas e novamente
homologadas em outro.
Se somarmos os dados da tabela acima com outros de igual teor para o
atual governo – quais sejam, o de que nenhuma unidade de conservação federal
foi criada na Amazônia Legal no governo Dilma, que titulou apenas 632 hectares
de terras de quilombos (contra cerca de 60 mil hectares nos dois mandatos do
governo Lula, segundo dados oficiais do Incra) e assentou por meio do Incra o
menor número de famílias registrado desde 1996 – o quadro se completa e fica
mais inteligível: estamos diante da maior paralisia dos procedimentos
administrativos de destinação e reconhecimento de terras públicas de que se tem
notícia nos últimos 25 anos.
Essa inércia em relação à proteção e gestão das terras públicas, em
geral, e ao reconhecimento dos direitos territoriais indígenas e de outros
grupos, em particular, parece estar articulada a um conjunto de outras
estratégias conduzidas em várias frentes por distintos atores sociais que
conformam a base de sustentação política do governo: no Legislativo, pela
tramitação de proposições (de projetos de lei a propostas de emenda à
constituição) que visam extinguir, ou reduzir áreas protegidas, ou flexibilizar
suas figuras jurídicas, desconstruir os direitos territoriais de indígenas e
quilombolas, e liberalizar a exploração de recursos naturais nas TIs (seja
viabilizando a mineração nestas, seja tornando possível a posse indireta destas
a produtores rurais na forma de concessão); na interface entre o Executivo e o
Legislativo, alterando todo o procedimento de demarcação das TIs e fragilizando
as normas relativas ao licenciamento ambiental de grandes obras de
infraestrutura; e no Judiciário, por meio de ações judiciais que buscam, ou
arguir a constitucionalidade da legislação em torno dos direitos territoriais
indígenas e de povos e comunidades tradicionais, ou construir interpretações
restritivas aos direitos coletivos e difusos – entre outras medidas em outras
frentes. Nas palavras do professor titular do Museu Nacional da UFRJ, João
Pacheco de Oliveira, estamos diante da maior e mais violenta ofensiva contra a política
indigenista da história – “um fato realmente inédito na história do País”.
Não se tratam, necessariamente, de medidas de má fé, ou de meros
deslizes ligados às externalidades negativas de opções políticas e econômicas
conjunturais; mas, sim, de desdobramentos gramaticais à atual arquitetura
hegemônica da política e da economia do país. Vítima do delírio de crescer
economicamente a taxas chinesas e almejando ampliar o superávit primário por meio
da exportação de commodities de baixo input tecnológico e superar os entraves
de infraestrutura logística ao crescimento de tais exportações – entre outras
orientações macroeconômicas; o governo tornou-se refém político do modelo
convencional de expansão do agronegócio (altamente demandante de terras e
recursos naturais, e socialmente excludente) e do lobby de grandes
conglomerados empresariais de infraestrutura, energia e mineração – que atuam
simultânea e indistintamente nos três vértices da Praça dos Três Poderes. A
primarização da economia brasileira e os sinais de aparente desindustrialização
são as expressões mais evidentes dessas orientações, que se traduzem, por sua
vez, na importância do agronegócio na manutenção do “PIBinho” [sic].
Considerando que o atual modelo de expansão do agronegócio se assemelha
a um "Pacman" de terras e recursos naturais, não surpreende que seus
representantes se esforcem para ampliar a oferta de terra barata. A estratégia,
agora, tem sido abrir áreas hoje protegidas (TIs, territórios quilombolas, UCs)
aos seus interesses econômicos, ou tirá-las do caminho, quando entendidas como
entraves à sua consolidação e/ou expansão. Se sentindo rejuvenescidos com o bem
sucedido desmonte do Código Florestal, os setores politicamente mais ativos do
agronegócio, articulam-se agora para investir sobre o butim das terras públicas
– ofensiva que se materializa, como relatado, em várias estratégias e frentes.
Uma destas é a frente midiática e comunicacional. A ofensiva aí se dá
por meio da ressurreição de velhos, porém sempre disponíveis, preconceitos em
relação aos povos e comunidades que tradicionalmente ocupam essas terras
(usualmente tratados como massa de manobra manipulada, sem vontade própria) e
da desqualificação das expertises nas quais se assenta o reconhecimento dos
direitos territoriais desses grupos, entre as quais, a Antropologia (vista não
como uma disciplina científica com conceitos e métodos próprios, mas como uma
expressão subjetiva de opiniões). Trata-se de um trabalho diuturno de
deslegitimação dos procedimentos de reconhecimento de direitos territoriais (no
caso, a demarcação de TIs e a titulação de territórios quilombolas), dos seus
beneficiários (povos indígenas e comunidades tradicionais) e dos técnicos (da
Funai, mas também de outros órgãos, e eventuais colaboradores) que os conduzem,
usando para isso todos os meios disponíveis aos detentores do monopólio da
violência simbólica legítima e das grandes corporações de comunicação.
Assim sendo, o contexto atual traz ingredientes novos para se entender
as mudanças de comando nos órgãos responsáveis pela gestão do que resta do
patrimônio de terras públicas e de territórios étnicos do País, e de seus
recursos naturais – entre os quais está a Funai. À sua instabilidade administrativa
crônica, resultante do lugar convencionalmente subalterno dessa agenda, deve se
agregar o quadro – aqui brevemente traçado – de uma investida sem precedentes
sobre tais terras, territórios e recursos no Brasil, e da disputa feroz em
torno dos mesmos. De um lado, o governo parece renunciar paulatinamente à
obrigação constitucional de proteção dos direitos difusos e das minorias –
renúncia esta ancorada na arquitetura político-econômica hegemônica, na
investida sobre os direitos territoriais e em uma concepção de País baseada no
desprezo pela natureza e pela diversidade.
De outro, os movimentos sociais e os indígenas, em especial, têm
respondido por meio das estratégias que se encontram ao seu alcance, a depender
dos contextos dos conflitos e dos objetivos em jogo nestes: retomadas de terras
ancestrais, ocupações de canteiros de obras e prédios públicos, e ações de
desobediência civil (como a resistência a mandatos judiciais de reintegração de
posse) – entre outras. Isso ajuda a entender os números levantados pelo
Conselho Indigenista Missionário (CIMI), ligado à Conferência Nacional dos
Bispos do Brasil (CNBB), de 560 índios assassinados no Brasil nos dez anos de
governos Lula e Dilma (praticamente um por semana) – um crescimento de 168,3%
em relação à média, que já não era honrosa, dos oito anos de FHC.
Em meio a esse cenário, fica-nos (para mim e para vocês leitores) a
pergunta: a que determinações respondem (a serviço do quê e de quem se dão) as
mudanças de comando nos órgãos responsáveis pela gestão das terras públicas no
País?
terça-feira, 11 de junho de 2013
Índios, os estrangeiros nativos
A dificuldade de uma parcela das elites, da população e do governo de reconhecer os indígenas como parte do Brasil criou uma espécie de xenofobia invertida, invocada nos momentos de acirramento dos conflitos
ELIANE BRUM1
A volta dos
indígenas à pauta do país tem gerado discursos bastante reveladores sobre a
impossibilidade de escutá-los como parte do Brasil que têm algo a dizer não só
sobre o seu lugar, mas também sobre si. Os indígenas parecem ser, para uma
parcela das elites, da população e do governo, algo que poderíamos chamar de
“estrangeiros nativos”. É um curioso caso de xenofobia, no qual aqueles que
aqui estavam são vistos como os de fora. Como “os outros”, a quem se dedica
enorme desconfiança. No processo histórico de estrangeirização da população
originária, os indígenas foram escravizados, catequizados, expulsos, em alguns
casos dizimados. Por ainda assim permanecerem, são considerados entraves a um
suposto desenvolvimento. A muito custo foram reconhecidos como detentores de
direitos, e nisso a Constituição de 1988 foi um marco, mas ainda hoje parecem
ser aqueles com quem a sociedade não índia tem uma dívida que lhe custa
reconhecer e que, para alguns setores – e não apenas os ruralistas –, seria
melhor dar calote. Para que os de dentro continuem fora é preciso mantê-los
fora no discurso. É isso que também temos testemunhado nas últimas
semanas.
Entre os exemplos mais explícitos está a tese de que não falam por si.
Aos estrangeiros é negada a posse de uma voz, já que não podem ser reconhecidos
como parte. Sempre que os indígenas saem das fronteiras, tanto as físicas
quanto as simbólicas, impostas para que continuem fora, ainda que dentro, é
reeditada a versão de que são “massas de manobra” das ONGs. Vale a pena olhar
com mais atenção para essa versão narrativa, que está sempre presente, mas que
em momentos de acirramento dos conflitos ganha força.
Desta vez, a entrada dos indígenas no noticiário se deu por dois
episódios: a morte do terena Oziel Gabriel, durante uma operação da Polícia
Federal em Mato Grosso do Sul, e a paralisação das obras de Belo Monte, no
Pará, pela ocupação do canteiro pelos mundurucus. O terena Oziel Gabriel, 35
anos, morreu com um tiro na barriga durante o cumprimento de uma ordem de
reintegração de posse em favor do fazendeiro e ex-deputado pelo PSDB Ricardo
Bacha, sobre uma terra reconhecida como sendo território indígena desde 1993. Pela
lógica do discurso de que seriam manipulados pelas ONGs, Oziel e seu grupo, se
pensassem e agissem segundo suas próprias convicções, não estariam
reivindicando o direito assegurado constitucionalmente de viver na sua área
original. Tampouco estariam ali porque a alternativa à luta pela terra seria
virar mão de obra barata ou semiescrava nas fazendas da região, ou virar
favelados nas periferias das cidades. Não. Os indígenas só seriam genuinamente
indígenas se aceitassem pacífica e silenciosamente o gradual desaparecimento de
seu povo, sem perturbar o país com seus insistentes pedidos para que a
Constituição seja cumprida. Aí já há uma pista para o que alguns setores da
sociedade brasileira entendem como identidade “verdadeira”: ser índio seria,
quando não desaparecer, ao menos silenciar.
No caso dos mundurucus, questionou-se exaustivamente a legitimidade de
sua presença no canteiro de obras da hidrelétrica de Belo Monte, por estarem “a
800 quilômetros de sua terra”. De novo, os indígenas estariam extrapolando
fronteiras não escritas. Os mundurucus estavam ali porque suas terras poderão
ser afetadas por outras 14 hidrelétricas, desta vez na Bacia do Tapajós, e pelo
menos uma delas, São Luiz do Tapajós, deverá estar no leilão de energia
previsto para o início de 2014. Se não conseguirem se fazer ouvir agora, eles
sabem que acontecerá com eles o mesmo que acabou de acontecer com os povos do
Xingu. Serão vítimas de um outro discurso muito em voga, o da obra consumada. A
trajetória de Belo Monte mostrou que a estratégia é tocar a obra, mesmo sem o
cumprimento das condicionantes socioambientais, mesmo sem a devida escuta dos
indígenas, mesmo com os conhecidos atropelamentos do processo dentro e fora do
governo, até que a usina esteja tão adiantada, já tenha consumido tanto
dinheiro, que parar seja quase impossível.
Adiantaria os mundurucus gritarem sozinhos lá no Tapajós, para serem
contemplados no seu direito constitucional, respaldado também por convenção da
Organização Internacional do Trabalho, de serem ouvidos sobre uma obra que vai
afetá-los? Não. Portanto, eles foram até Belo Monte se fazer ouvir. Mas, como
são indígenas, alguns acreditam que não seriam capazes de tal estratégia
política. É preciso resgatar, mais uma vez, o discurso da manipulação – ou da infiltração.
Já que, para serem indígenas legítimos, os mundurucus teriam de apenas aceitar
toda e qualquer obra – e, se fossem bons selvagens, talvez até agradecer aos
chefes brancos por isso.
Quando os
indígenas levantam a voz, a voz não seria sua. Seria de um outro, a quem
emprestam o corpo. Ninguém é ingênuo a ponto de acreditar que o discurso dos
indígenas como massa de manobra seja inocente. Ele serve a muitos interesses,
inclusive o de tirar do foco os reais interesses sobre as terras indígenas de quem
o difunde. Mas esse discurso não teria ressonância se não tivesse a adesão de
uma parte significativa da população brasileira. E esta adesão se dá, me
parece, por essa espécie de xenofobia invertida. Estes “estrangeiros nativos”
ameaçariam um suposto progresso, já que seu conhecimento não é decodificado
como um valor, mas como um “atraso”, sua enorme diversidade cultural e de
visões de mundo não são interpretadas como riqueza e possibilidades, mas como
inutilidades. Neste sentido, há uma frase bastante reveladora de como esse
olhar – ou não olhar – contamina amplas parcelas da sociedade, inclusive no
governo. Ao falar em uma audiência pública na Câmara dos Deputados, em dezembro
passado, o ministro da Justiça, José Eduardo Cardozo, disse que sua pasta atendia
“da toga à tanga”. Entre os dois extremos, podemos ver em qual deles o ministro
situa o ápice da civilização e também o seu oposto.
Há ainda uma dupla invocação do estrangeiro nesse discurso, já que a
única coisa pior do que ser “massa de manobra” de ONGs nacionais seria ser das
estrangeiras. Evocar a ameaça externa parece sempre funcionar, como naqueles
SPAMs, que volta e meia reaparecem, de que “os gringos estão invadindo a
Amazônia” – esta também, tão nossa que podemos destruí-la, tarefa a que temos
nos dedicado com afinco. Ao denunciar uma suposta apropriação do corpo
simbólico dos indígenas por outros, o que se revela, de fato, é a frustração
porque esse corpo não se deixa expropriar e manipular pelas elites como antes.
Porque apesar de todas as violências, há uma voz que ainda escapa – e que
demanda o reconhecimento de seu corpo-terra, de seu pertencimento. Aquele que é
visto como o de fora se torna um incômodo quando diz que é parte.
Vale a pena prestar atenção em quem amplifica o discurso dos indígenas
como “massa de manobra”, para verificar que fazem exatamente o que acusam
outros de fazer: afirmam o que os indígenas, todos eles, precisam e querem.
Parece haver um consenso, inclusive, de que o verdadeiro desejo dos indígenas
seria se tornar um trabalhador assalariado e urbano ou, pelo menos, o
beneficiário de algum programa de transferência de renda do governo.
Nesta posição, eles não atrapalhariam ninguém – e menos ainda os
produtores rurais. Este é o momento chave para a entrada de outro discurso
recorrente: o de que os indígenas querem terra “demais”. Basta fazer as contas,
como fez o jornalista Fabiano Maisonnave, na Folha de
S. Paulo: com uma população de 28 mil indígenas em Mato Grosso
do Sul, os terenas têm sete reservas, somando cerca de 20 mil hectares; já o
produtor rural Ricardo Bacha, em cuja fazenda foi morto o terena Oziel Gabriel,
tem cerca de 6.300 hectares, dos quais 800 em litígio. Se é de concentração de
terra na mão de poucos que se pretende falar, há muitos números ilustrativos
que podem ser citados. Outro dado interessante vem de uma pesquisa da Embrapa,
citada em artigo do engenheiro florestal Paulo Barreto, no site O Eco:
há 58,6 milhões de hectares de pastos degradados pela pecuária, o equivalente a
53% da área total de terras indígenas. “A Embrapa tem demonstrado que já
existem as tecnologias para aumentar a produtividade dos pastos degradados.
Assim, ocupar terra indígena é, além de inconstitucional, prova de
incompetência”, afirma Barreto. A Embrapa é um dos novos atores que deverão ser
chamados para opinar sobre as demarcações, numa manobra para esvaziar a Funai e
agradar a bancada ruralista.
O lugar de estranho indesejado,supostamente sem espaço no Brasil que
busca o desenvolvimento, tem permitido todo o tipo de atrocidades contra
indivíduos e também contra etnias inteiras ao longo da história. Seria muito
importante que cada brasileiro reservasse meia hora ou menos do seu dia para
ler pelo menos as primeiras 16 páginas do resumo do Relatório Figueiredo, um documento
histórico que se acreditava perdido e que foi descoberto no final de 2012 por
Marcelo Zelic, vice-presidente do Grupo Tortura Nunca Mais, de São Paulo. No
total, o procurador Jáder Figueiredo Correia dedicou 7 mil páginas para contar
o que sua equipe viu e ouviu. A íntegra também está disponível na internet.
O relatório, datado de 1968, documentou o tratamento dado aos povos
indígenas pelo extinto Serviço de Proteção aos Índios (SPI). Entre os crimes,
cujos responsáveis foram nominados, mas jamais punidos, estão os “castigos”
infligidos pelos funcionários aos indígenas, como crucificações e uma tortura
conhecida como “tronco”, na qual a vítima tinha o tornozelo triturado. Crianças
eram vendidas para abusadores, mulheres, estupradas e prostituídas. Duas
aldeias de pataxós, na Bahia, foram dizimadas para atender aos interesses de
políticos de expressão nacional da época.Uma nação indígena inteira foi extinta
por fazendeiros, no Maranhão, sem que os funcionários sequer tentassem
protegê-la. O procurador cita a possível inoculação do vírus da varíola em uma
etnia de Itabuna, na Bahia, para que as terras fossem liberadas para “figurões
do governo”, assim como o extermínio de um grupo de cintas-largas, em Mato
Grosso, de várias formas: atirando dinamite de um avião e adicionando
estricnina ao açúcar, além de caçá-los e matá-los com metralhadoras. O massacre
ocorreu em 1963, ainda no período democrático, portanto, e os que ainda assim
sobreviveram foram rasgados com o facão, “do púbis a cabeça”.
A lista é longa. É importante ressaltar que tudo isso não se passou na
época de Pedro Álvares Cabral, nem mesmo no tempo dos bandeirantes, mas na
década de 60 do século XX. Praticamente ontem, do ponto de vista histórico.
Cabe enfatizar ainda que os crimes foram infligidos aos indígenas, num
comportamento disseminado por todo o país, por representantes do Estado
brasileiro. Menciono o relatório não só porque acredito que precisamos
conhecê-lo, mas porque ele demonstra que tipo de olhar permite que atrocidades
dessa ordem tenham se tornado uma política não oficial, mas exercida como se
fosse – e não por um único psicopata, mas por dezenas de funcionários e suas
esposas, com o apoio e às vezes a ordem da direção do órgão criado para
proteger os povos tradicionais. Para estas pessoas, o corpo dos indígenas era
território a ser violado, como violada foi a sua terra. Como aqueles sem lugar,
os indígenas não eram reconhecidos como iguais, nem mesmo como humanos. Eram o
que, então? O procurador responde: “Tudo como se o índio fosse um irracional,
classificado muito abaixo dos animais de trabalho, aos quais se presta, no
interesse da produção, certa assistência e farta alimentação”.
Para quem imagina que este capítulo é parte do passado, vale a pena
lembrar que apenas nos últimos dez anos, nos governos Lula-Dilma, foram
assassinados 560 indígenas. A Constituição precisa ser cumprida, as demarcações
devem ser feitas, os fazendeiros que possuem títulos legais, distribuídos pelo
governo no passado, têm direito a ser indenizados pelo Estado. Mas há um
movimento maior, mais profundo, que é preciso empreender. Como “estrangeiro
nativo”, uma impossibilidade, só é possível perpetuar a violência.É necessário
fazer o gesto, também em nível individual, de reconhecer o indígena como parte,
não como fora. Para isso é preciso primeiro desejar conhecer, o gesto que
precede o reconhecimento. Só então o Brasil encontrará o Brasil.
(Eliane Brum escreve às segundas-feiras)
1 Eliane Brum, jornalista, escritora e documentarista. Autora
de um romance - Uma Duas (LeYa)
- e de três livros de reportagem: Coluna Prestes – O avesso da lenda (Artes
e Ofícios), A vida que ninguém vê (Arquipélago,
Prêmio Jabuti 2007) e O olho da rua - uma repórter em
busca da literatura da vida real (Globo).
elianebrum@uol.com.br
Twitter: @brumelianebrum
(Foto: Lilo Clareto/ Divulgação)
Twitter: @brumelianebrum
(Foto: Lilo Clareto/ Divulgação)
Indígenas contra hidrelétricas na Amazônia ocupam sede da Funai, em Brasília
FONTE: Brasil de
Fato
Renato
Santana de Brasília
Fotos: Ruy Sposati
Os
145 indígenas dos rios Xingu, Tapajós e Teles Pires, no Pará, ocuparam a sede
da Fundação Nacional do Índio (Funai), em Brasília, na tarde desta
segunda-feira, 10. Os indígenas aguardavam a presidente interina do órgão
indigenista, Maria Augusta Assirati, para entregar documento com
reivindicações, solicitar hospedagem e a data em que seriam levados de volta
ao Pará. Porém, Maria Augusta não compareceu e por emissários avisou que
estava em outra reunião. Nesta terça-feira, 11, completa uma semana que o grupo
desocupou o principal canteiro de obras da UHE Belo Monte e veio ao Distrito
Federal.
“Desde
a manhã estamos esperando alguém da Funai para falar da nossa pauta, da
hospedagem. Ninguém apareceu até agora. Nós chamamos vocês para nossa
assembleia, que começou quando chegamos, e vocês não vieram. Então estamos
informando agora para vocês que nos estamos acampando aqui na Funai. Vamos
ocupar a Funai a partir de agora”, disse Josias Munduruku aos representantes
delegados pela interina da Funai.
O
grupo já demonstrava indignação com a postura do ministro-chefe da Secretaria
Geral da Presidência da República (SGPR), Gilberto Carvalho, que na manhã
desta segunda negou reunião com os indígenas. Ao invés do ministro, quem
recebeu os indígenas foram soldados do Exército e assessores. Pelo próprio
governo, os indígenas foram encaminhados para a Funai, onde seriam recebidos
pela presidente interina. Até o final da tarde de hoje, Maria Augusta não
apareceu.
“Disseram
(na SGPR) que receberiam uma comissão de dez, mas nós não nos separamos. O
governo não quer entender isso, respeitar nosso jeito. Sabem que não nos
separamos. Por essa postura, o ministro descumpre os acordos e assim fica
difícil conversar”, explica Jairo Saw, assessor do cacique-geral Munduruku.
Para as lideranças, os assessores de Carvalho disseram que ele só poderia
atendê-los até as 11h15. Em nota, a SGPR disse que as lideranças indígenas se
negaram a se reunir com Gilberto Carvalho.
“O
governo está dando as costas para nós. Não quer nos ouvir. Nós estamos
entendendo isso. Ele disse que vai fazer hidrelétricas de qualquer jeito, e
ele sabe que nós não queremos. Essa nota do governo nós lemos na reunião. Ele
disse que esperou a gente, disse que nos recusamos. É mentira! Foi ao
contrário. Nós fomos lá, nós que esperamos”, disse Josias Munduruku para os
emissários de Maria Augusta.
O
povo Munduruku interpelou judicialmente, no início deste mês, o ministro
Carvalho por outra nota da SGPR, onde acusa “autodenominadas” lideranças de
envolvimento com atividades ilícitas. Leia matéria na íntegra aqui.
Carta
protocolada; carta não recebida
Os
indígenas, mesmo sem serem recebidos, protocolaram na SGPR o documento que
entregariam ao ministro em mãos – leia a íntegra aqui. Na carta, os indígenas
relatam ponto a ponto as áreas afetadas pelo projeto hidrelétrico nos rios
Teles Pires e Tapajós – motivo pelo qual o grupo ocupou no mês de maio, por
17 dias em duas ocasiões, o principal canteiro das obras da UHE Belo Monte.
Um dos locais atingidos é a Cachoeira Sete Quedas, sagrado para os Munduruku,
Kayabi e Apiaká, que será inundada pela usina que está sendo construída no
Teles Pires.
“A
Cachoeira de Sete quedas (Paribixexe): É uma linda cachoeira contendo sete
quedas em formato de escada. É o lugar onde os mortos estão vivendo, o céu
dos mortos, ou seja, o mundo dos vivos, o reino dos mortos. É um local
sagrado para os Munduruku, Kayabi e Apiakás, aonde também os peixes se
procriam e diversas espécies e todos os tamanhos, onde existe a mãe dos
peixes. Nas paredes constam as pinturas rupestres deixados pelo Muraycoko
(pai da escrita), a escrita deixada para os Munduruku através das escritas
surabudodot, por muito tempo remoto (sic)”, diz trecho da carta.
Para
Valdenir Munduruku, o ministro Carvalho demonstra com as atitudes apresentadas
a forma de diálogo que pretende manter: “Aqui, a casa deles, nos recebem com
o Exército e a polícia e não nos deixam entrar. Em nossa casa, mandam o
Exército e a polícia para poderem entrar. Isso não é diálogo. É como se nós
fôssemos inimigos”. Josias Munduruku lembra que na reunião da última
terça-feira, 4, o ministro disse que as hidrelétricas vão sair, pois se trata
de uma decisão de governo: “Me pergunto: que consulta é essa que eles querem
fazer? Não é consulta quando eles (governo) tomam uma decisão sem volta. O
que poderá sair de consulta assim?”, questiona.
Por
enquanto, não há previsão de retorno dos indígenas para o Pará e de
desocupação do órgão indigenista estatal. Tampouco a hospedagem ficou
definida, mas, pelo visto, depois do anúncio da ocupação à sede da Funai, os
indígenas já arrumaram um lugar para ficar - ao menos por essa noite.
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Conjuntura da Semana. No altar do progresso, direita e esquerda se unem no sacrifício dos povos indígenas
A análise
da Conjuntura da Semana é uma (re) leitura das Notícias
do Dia publicadas diariamente no sítio do IHU. A análise é
elaborada, em fina sintonia com o Instituto Humanitas Unisinos – IHU,
pelos colegas do Centro de Pesquisa e Apoio aos Trabalhadores – CEPAT,
parceiro estratégico do IHU, com sede em Curitiba-PR, e por Cesar
Sanson, professor na Universidade Federal do Rio Grande do Norte –UFRN,
parceiro do IHU na elaboração das Notícias do Dia.
Sumário:
Governo democrático popular repete os
militares: “O índio não pode deter o desenvolvimento”
Ameaças aos povos indígenas vêm do Estado e do agronegócio
Escalada da tensão. Como resolver a questão indígena?
Indígenas são vítimas de preconceito e discriminação
Indígenas são o movimento social mais ativo da atualidade
Quem está com os indígenas?
Garantias da Constituição Federal
Tuitadas indígenas
Escalada da tensão. Como resolver a questão indígena?
Indígenas são vítimas de preconceito e discriminação
Indígenas são o movimento social mais ativo da atualidade
Quem está com os indígenas?
Garantias da Constituição Federal
Tuitadas indígenas
Conjuntura da Semana em frases
Eis a
análise.
Governo
democrático popular repete os militares: “O índio não pode deter o
desenvolvimento”
Diante dos
acontecimentos das últimas semanas envolvendo os povos indígenas, o sociólogo Ivo Lesbaupin levanta
uma inquietante questão: "Qual a diferença entre a política indigenista do
atual governo e aquela da ditadura de 1964?".
O
professor da UFRJ e assessor dos movimentos sociais lembra que
os militares nos anos 1970 imbuídos de uma concepção desenvolvimentista – Brasil
Grande – passaram por cima dos povos indígenas que ousaram
resistir. “O índio não pode deter o desenvolvimento”, dizia em 1971 o
general do exército Bandeira de Mello, na época presidente da FUNAI.
A
confirmação da fala do general está vindo agora à tona com o caso do extermínio de dois
mil índios waimiri-atroari e de fatos relatados noRelatório Figueiredo.
Ambos os casos são amostras das atrocidades cometidas pelos militares no
período da ditadura contra os índios.
Passaram-se
50 anos do início da ditadura militar, porém, a concepção desenvolvimentista
que veem os índios como um estorvo, um empecilho e um obstáculo permanece
intacta. Como afirma Roberto Liebgott do Cimi-RS em entrevista exclusiva à
revista IHU On-Linedesta semana, “os conceitos de entraves e
obstáculos foram amplamente utilizados no período da ditadura militar pelos
governos autoritários, quando se pretendia abrir estradas ou construir
barragens em terras que habitavam comunidades e povos indígenas. O argumento
dos ditadores, era de que os interesses da nação não poderiam ser atrapalhados
pelos índios, por isso eles precisavam ser removidos".
"Fazendo
um paralelo, diz Liebgott, com os discursos recentes de
autoridades públicas, especialmente da ministra da Casa Civil, Gleisi Hoffmann,
constata-se que a concepção que se tem dos povos indígenas em nosso país (em um
governo 'democrático e popular') é o mesmo dos governos da ditadura militar.
Disse a nobre ministra: ‘Não podemos negar que há grupos que usam os nomes dos
índios e são apegados a crenças irrealistas, que levam a contestar e tentar
impedir obras essenciais ao desenvolvimento do país, como é o caso da
hidrelétrica de Belo Monte. O governo não pode concordar com propostas
irrealistas que ameaçam ferir a nossa soberania e comprometer o nosso
desenvolvimento’”.
O
dirigente do Cimi lembra que “não raras vezes o ex-presidente Lula,
em discursos inflamados pela defesa das grandes obras, disse que os direitos
dos índios, quilombolas e ambientais eram penduricalhos. Essa é a concepção que
o governo brasileiro tem dos povos indígenas”.
Antes o
governo ditatorial, os militares, os generais, majores e coronéis das Forças
Armadas como Sebastião Curió que não titubeavam em afastar o
“obstáculo”- os povos indígenas – com o uso da manu militari. Hoje,
o PT, o PCdoB, o PMDB e seus aliados.
Antes, os generaisCosta e Silva, Médici, Geisel, o uso da
Lei de Segurança Nacional, as forças políticas em torno da Arena –
a direita. Hoje, Dilma Rousseff, o PT, ministros de
Estado progressistas – a esquerda.
A
afirmação do general do exército em 1970 de que “o índio não pode deter o
desenvolvimento” é hoje reafirmada pelas lideranças de um governo que se
autodenomina democrático-popular, como destaca Roberto Liebgott.
Ainda mais espantoso, entre os porta-vozes que insinuam que os índios são um
“obstáculo” muitos são de lideranças no interior do PT que se
posicionam à esquerda no debate interno do Partido, como o ministro da justiça José Eduardo Cardozo e
o governador do Rio Grande do Sul Tarso Genro ou
ainda de ministros comoGilberto Carvalho e Gleisi Hoffmann, o
primeiro ligado anos atrás aos movimentos da Teologia da Libertação como a
Pastoral Operária, e a segunda, promessa de modernização do Partido dos
Trabalhadores.
As forças
autoritárias, retrógradas, conservadoras e portadoras da ideia de que o índio
tinha que ser “emancipado” da sua terra e assimilado pela sociedade
produtivista de ontem é reproduzida pelas forças políticas de hoje que se
afirmam progressistas. “A história parece estar se repetindo, o que está em
questão tanto na época da ditadura quanto hoje é a concepção de desenvolvimento
(...) Hidrelétricas, mineradoras, agronegócio, desenvolvimentismo,
neodesenvolvimentismo versus direitos dos povos indígenas:
qual a diferença entre a política indigenista do atual governo e aquela da
ditadura de 1964”? pergunta Ivo Lesbaupin.
Diz ele:
“Foi o governo Lula que ressuscitou um projeto do tempo da ditadura, a usina
hidrelétrica de Belo Monte, no rio Xingu. “Este projeto, diz o sociólogo,
iniciado em 1975, foi interrompido em 1989, em razão da resistência dos povos
indígenas. O Banco Mundial, que financiaria a construção, desistiu da obra.
Somente se voltou a ouvir falar neste projeto quase vinte anos depois, no
primeiro mandato do governo Lula”.
Segundo Lesbaupin,
o projeto foi remodelado e empurrado goela abaixo daqueles que resistiram a
ele, mesmo depois da promessa de que isso não aconteceria. Ivo Lesbaupin lembra
que “houve inúmeras tentativas de povos indígenas, de movimentos sociais, de
setores da Igreja católica, inclusive do bispo local, D. Erwin Kräutler, de
demover o governo deste projeto”. De nada adiantou. O mesmo modus operandi retorna
agora com o projeto do complexo hidrelétrico no
Tapajós.
Repete-se
o desrespeito aos direitos dos povos indígenas. O governo na sua obsessão
crescimentista, para usar um conceito surgido nos debates da 5ª Semana Social Brasileira,
enquadra o Ibama, a Funai, e não ouve as graves
denúncias do Ministério Público Federal. Ainda mais, “rasga” reiteradamente a Convenção 169 da Organização
Internacional do Trabalho (OIT) que determina a consulta prévia
às populações tradicionais afetadas por empreendimentos em seus territórios.
Os
indígenas impactados de maneira definitiva pelos projetos de usinas
hidrelétricas na Amazônia nunca foram consultados previamente, da forma
definida pela Constituição brasileira e pela Convenção 169. Por
esse motivo, o governo brasileiro responde a três processos judiciais,
movidos pelo Ministério Público Federal no Pará e no Mato Grosso.
Ameaças aos
povos indígenas vêm do Estado e do agronegócio
O
sofrimento e a ameaça de desterritorialização a que estão submetidos os povos
indígenas não se resumem, entretanto, aos grandes projetos. Faz parte da vida
cotidiana de muitas comunidades indígenas a queima de barracos, intimidações,
destruição de plantações, sequestros e assassinatos seguidos até mesmo do
desaparecimento de corpos de lideranças indígenas. É o que se tem visto, particularmente
no Mato Grosso do Sul, palco recente do cruel assassinato do cacique Nisio Gomes e do
assassinato dias atrás do terena Osiel Gabriel.
Aqui a
ponta de lança da sombra da morte sobre os indígenas é do agronegócio que conta
muitas vezes com a omissão, a conivência ou até mesmo a participação do braço
armado do Estado. Segundo o missionário Egon Heck, “o que se
está fazendo com os povos e direitos indígenas neste país, só teve precedentes,
na década de sessenta e setenta, com um processo de genocídio programado e
planejado pela ditadura militar e interesses econômicos ávidos por assaltar os
recursos naturais das terras indígenas”.
Passadas
décadas, pouco ou quase nada mudou. A direita e a esquerda se encontram na
mesma vertente desenvolvimentista e continuam sacrificando os povos indígenas
no “altar do progresso”. Tristemente constata-se que nos oito anos de governo
do ex-presidente Lula e nos dois primeiros da presidente Dilma
Rousseff, 560 índios foram assassinados no Brasil — média de 56 por
ano. Os dados são do
Conselho Indigenista Missionário – Cimi.
Antes o
modelo imposto pela ditadura, pela dominação direta e bruta. Agora pela busca gramsciana da
hegemonia, do consenso que joga e se vale do imaginário comum e simplista, até
mesmo entre setores esclarecidos na academia, de que os índios estão
atrapalhando o desenvolvimento do país. Basta ver o silêncio de figuras de proa
da intelectualidade da esquerda brasileira que em seus blogs, sites e colunas
se calam sobre o acontecimento mais importante da conjuntura brasileira nas
últimas semanas: o ataque virulento às conquistas conseguidas pelos povos
indígenas às duras penas na Constituinte de 1988.
Ontem, os
militares aliavam-se aos interesses das mineradoras, dos fazendeiros, das
multinacionais que tinham interesse na exploração de “territórios” ricos em
jazidas. Hoje, a esquerda se junta aos seus novos aliados, o agronegócio.
Sintomática,
a fala da líder maior do agronegócio brasileiro Kátia Abreu. Questionada
sobre o que mudou na relação com o governo de Dilma Rousseff, a
líder do agronegócio ga¬rante que não foi ela: “Meu ponto de vista não mu¬dou
em nada. Os governos anteriores não tinham uma compreensão tão aberta da
agrope¬cuária brasileira como a presidente Dilma tem demonstrado”, diz a
senadora, para completar que quem mudou foi o governo do PT – “o que me
aproxima da presidenta Dilma é a concordância de ideias”, disse a senadora.
A
presidente da Confederação Nacional da Agricultura – CNA faz
questão de destacar que a sua aproximação com a presidente não se deu no campo
político-ideológico, e sim no campo das ideias na defesa do agronegócio
brasileiro. Afirma que considera Dilma uma petista diferente:
“Não só eu como um grande segmento do país, não identifica a presidente Dilma
como petista na sua essência, ela é quase uma mandatária suprapartidária, que
defende os interesses do país de forma racional conversando com todos os
segmentos”, diz a senadora, que afirma ter muitas semelhanças com a presidente
da República.
A opção
brasileira por um modelo altamente dependente da exploração de matérias-primas,
em especial de commodities agrícolas e minerais para
exportação [soja, etanol, pecuária, minérios...] associado aos grandes projetos
de matriz energética ancoradas nas grandes hidrelétricas tornaram os povos
indígenas uma ameaça ao Estado brasileiro.
É nesse
contexto que devem ser compreendidos os acontecimentos dos últimos meses, entre
eles: a Operação Tapajós na qual o governo se valeu de recursos sórdidos
como infiltração de agentes policiais nas comunidades indígenas e a ocupação do
seu territórios – fatos que lembram os anos da ditadura.
É também
nesse contexto que se explicam os conflitos em torno da ocupação do canteiro de Belo Monte.
Mas as
ações anti-indígenas não ficam por aí. De todos os lados é pesada a artilharia
contra os povos indígenas, ora partindo dos ruralistas (PEC 215, PEC 38, PEC 237, Projeto de Lei 1610) e
ora do governo (Portaria 303, Decreto nº 7.957/13, Portaria Interministerial 419/11).
Escalada da
tensão. Como resolver a questão indígena?
É a partir
do modelo, das opções do governo que se compreende o gigantesco retrocesso no marco regulatório da
demarcação das terras indígenas encabeçado pela ministra da Casa Civil a mando
de Dilma Rousseff. “Com tal medida fica evidente a responsabilidade
da ministraGleisi Hoffmann pela radicalização da tensão no Mato
Grosso do Sul e que atinge também outros povos de outros Estados. O governo
erra ao escolher lidar com o problema pelo caminho da protelação e do desmonte
constitucional das funções da Funai”, afirma carta aberta endereçada à
presidente Dilma Rousseff assinada por defensores dos Direitos Humanos.
Segundo análise do Cimi, “o
governo Federal dá mostras cada vez mais evidentes que não entende e que não
está disposto a entender os povos indígenas brasileiros”. A organização destaca
que “o governo Dilma aprofundou o processo de retração de demarcações das
terras indígenas”. O Cimi comenta que “a presidente Dilma
ainda não recebeu os povos indígenas para qualquer conversa ao longo destes
mais de dois anos de mandato. No entanto, somente no mês de maio, a presidenta
reservou tempo em sua agenda para ao menos cinco encontros com representantes
dos ruralistas, inimigos históricos dos povos indígenas”.
O
assassinato do terena Osiel Gabriel é
resultante da escalada da tensão promovida pelo agronegócio com a conivência do
governo federal. Essa tensão tende a crescer. Os ruralistas anunciam para os
próximos dias atos em todo o país e afirmam que poderão
ocorrer "novos e dramáticos confrontos de consequências
imprevisíveis".
No Mato
Grosso do Sul, os ruralistas não admitem nenhuma demarcação. Um dos porta-vozes
dos fazendeiros na região, o deputado Nilson Leitão (PSDB-MT)
diz que “o governo não tem o direito de transformar o Brasil em uma nação
indígena. Principalmente em uma área que é um cinturão agrícola. Não dá para
ser uma grande reserva indígena e ao mesmo tempo uma potência agrícola",
afirma o parlamentar.
O que o
parlamentar não conta é que o território, hoje de posse do agronegócio, já foi
território dos povos indígenas: “Com o final da Guerra do Paraguai (final do
século XIX), houve a anexação de áreas que não integravam o território
brasileiro. Para garantir a soberania do país na região, a União fomentou a
vinda de colonos para o então estado de Mato Grosso, propagando a riqueza do
solo e a certeza de um pedaço de terra aos colonizadores”, afirma o Ministério
Público Federal do Mato Grosso do Sul.
Essas
terras, diz o MPF do MS “ocupadas por comunidades indígenas,
foram tituladas em sua grande maioria pelo Estado de Mato Grosso e, em alguns
casos, pela União a particulares, via de regra de modo oneroso, e os índios que
moravam nessas áreas foram confinados em reservas indígenas, criadas no século
XX, sem respeitar as diferenças étnicas e grupais”.
A mesma
história é contada pelo antropólogo Levi Marques-Pereira da
Universidade Federal da Grande Dourados – UFGD em entrevista à IHU
On-Line.
Tomando
como referência a fazenda Buriti, palco do conflito que resultou na morte de Oziel
Gabriel, o antropólogo comenta que “a partir da última década do século XIX
se inicia o processo de ocupação das terras até então ocupadas pelos Terena na
região de Buriti. A titulação das terras se estende até as primeiras décadas do
século XX, mas a expulsão dos Terena foi gradativa, se prolongando pelo menos
até a década de 1970. Em muitos casos os próprios Terena foram incorporados nos
trabalhos de formação de fazendas sobre os seus territórios, já que essa se
tornava a única alternativa, além de constituir uma estratégia para
permanecerem em seus territórios”.
A
modernização do campo, a partir da década de 1970, explica Levi
Marques-Pereira, impôs a “retirada total das famílias, obrigadas a se
recolherem na área de acomodação de 2.090 hectares, constituída como reserva em
1926”. Somente mais de 70 anos depois, em 2001, aFunai reconheceu o
direito dos Terena de Buriti sobre uma área de
17.200 hectares. “A partir de então a região tem vivido forte tensão, com os
Terena pressionando para que o governo conclua o processo de regularização de
suas terras de ocupação tradicional”, menciona.
Para ele,
“o vínculo dos Terena de Buriti com a terra que reivindicam é histórico e
cultural”. Na opinião do antropólogo, “o Estado deve assumir o ônus de ter
titulado terras indígenas em nome de particulares, deve reconhecer seu erro e
ressarcir tanto os indígenas como os atuais proprietários”. Portanto, as terras
que os ruralistas reivindicam como suas, foram na verdade roubadas dos povos
indígenas.
Semelhante opinião tem o
Ministério Público Federal (MPF) no Mato Grosso do Sul para quem “os
conflitos fundiários em Mato Grosso do Sul são históricos e resultam de uma
série de ações e omissões do Estado brasileiro”. Segundo o MPF,
“para se entender a tensão do campo, é preciso antes analisar a história de
ocupação do estado, que resultou no esbulho de comunidades indígenas de seus
territórios tradicionais e na concessão de títulos públicos a particulares”.
Para o MPF,
a solução para o conflito seria a reparação do dano causado aos fazendeiros
pela titulação errônea de terras indígenas: “Por mais que a sugestão possa vir
a beneficiar os produtores rurais, objetiva tornar mais célere as demarcações
de terras indígenas em Mato Grosso do Sul, permitindo o retorno dos índios às
suas terras tradicionais e, em consequência, a manutenção de sua cultura, usos,
costumes e tradições”.
O
procurador da República Emerson Kalif Siqueira diz
que “falta vontade política para solucionar a questão indígena no estado. São
muitas as propostas para minimizar a tensão fundiária, mas a postura da União -
de apenas receber um lado do conflito e de ignorar que grande parte da situação
decorre principalmente da titulação errônea de terras, a cargo da administração
pública como um todo -, só tem agravado a situação, chegando ao ponto de
batalhas judiciais perdurarem durante anos e de casos de violência se tornarem
frequentes no estado”.
O
Procurador é duro com o governo: “Não se trata a questão indígena como caso de
polícia. Se forem necessárias horas ou dias de conversa e negociação, que se
explique, enfatize, converse, negocie. O que não se pode é deixar que a
inapetência da polícia – que não tem experiência em conflitos rurais -
transforme populações tradicionais em alvo de violência”, afirma ele.
A forma
como será resolvida a questão indígena no Brasil “dará o tamanho da régua que
apontará a medida da evolução democrática de nossa sociedade”, afirmam em carta ativistas
ligados à defesa dos direitos humanos.
Indígenas são
vítimas de preconceito e discriminação
Os
indígenas são vítimas ainda para além do Estado brasileiro e do agronegócio. Sofrem
dos mesmos preconceitos de
outras minorias/maiorias. Nas cidades, são encontrados vendendo artesanato,
quando, para muitos, deveriam estar procurando um emprego. Considerados
vagabundos, esmoleiros e sujos, são cobertos pela capa da discriminação. Causam
repugnância e enfeiam as cidades. Para a maioria da população, são
“invisíveis”, embora estejam à vista de todos. As manifestações de resistência
que presenciamos são, certamente, uma maneira de dizer que eles existem e
querem ser respeitados em seus direitos fundamentais.
Para a maioria
da população, ainda, sua presença e atuação representam um estorvo da ordem
social. O mundo seria melhor se não existissem. São, para retomar e
resignificar uma expressão cunhada pelo recentemente falecido sociólogo francês Robert Castel, “os
inúteis do mundo”: não produzem e são contrários aos grandes projetos de
desenvolvimento econômico.
Neste
contexto, é ilustrativo recordar o que já disse um antropólogo francês Pierre
Clastres, que morreu muito jovem, mas que conheceu várias etnias
brasileiras, entre elas a dos guaranis. “Um dos livros de Clastres,
escreve Washington Novaes, trata
exatamente dessa etnia - e do que ele designava como ‘sociedade contra o
Estado’. Esse é o título de outra obra sua, onde mostra que nós, não índios,
nos habituamos a descrevê-los não pelo que têm, e sim pelo que não têm - não
usam roupas, não detêm nossas tecnologias, não vivem como brancos”.
“Com isso
- prossegue ainda Washington Novaes - nos esquecemos do que
têm e pode ser muito importante:
1) a não delegação de poder (o
chefe não dá ordens; é o conhecedor da história e da cultura, o grande mediador
de conflitos, mas não dá ordens - até porque seria recebido com espanto);
2) a autossuficiência no nível
pessoal (um índio, na força de sua cultura, sabe fazer sua casa, plantar sua
roça, colher, fazer seus instrumentos de trabalho e adorno, sua rede, conhece
as plantas nativas úteis, etc., não precisa de ninguém para nada); e
3) o privilégio de conviver com a
informação aberta, ninguém dela se apropria para transformar em instrumento
político ou econômico.”
Uma
cultura, um “outro” que, cinco séculos depois, continua a representar uma
ameaça. E por se estruturarem como uma sociedade contra o Estado, os guaranis
tornam-se indesejáveis para a nossa sociedade e o Estado hegemônicos. Sem eles,
no entanto, estariam escancaradas todas as portas para a saciedade insaciável
da vontade de poder do grande capital e do agronegócio. Na sua existência e
resistência plasma-se uma reserva moral, antropológica e econômica; um outro
modelo de desenvolvimento, social e ambientalmente menos impactante, é
possível.
Indígenas são
o movimento social mais ativo da atualidade
Ironia da
história, os indígenas, que pareciam quase extintos, renascem das cinzas, como
uma fênix. Ao longo da história do Brasil (ao menos na mais recente, aquela que
coincide com o processo de industrialização e modernização de nosso país),
nunca foram considerados um movimento social de transformação. Segundo a
concepção hegemônica, a transformação social vinha do mundo urbano
(especialmente do movimento operário) e se fazia na esteira da lógica da
racionalidade ocidental europeia.
Nas
últimas décadas, têm dados sinais de grande vitalidade e originalidade. Desde
os anos 1990, quando emergiram na Selva Lacandona, no México, com o Exército Zapatista de Libertação
Nacional (EZLN), contra a globalização, os povos indígenas têm
mostrado que estão vivos em toda a América Latina. São
protagonistas de primeira linha na Bolívia, Equador e Brasil; têm protagonismo
também no Chile, Peru e, com menos intensidade, na Argentina.
O
protagonismo dos indígenas no continente latino-americano tem sido objeto de
diversas análises, que tiveram a preocupação de auscultar as novidades e
contribuições deste movimento, na perspectiva de vislumbrar elementos para a
construção de um outro modelo de desenvolvimento econômico e social, plural,
sustentável, igualitário e justo. A pergunta de fundo é esta: que apelos o
movimento indígena faz a uma esquerda social? A questão indígena cabe nos
atuais projetos de esquerda?
Os focos
de tensões envolvendo indígenas encontram-se neste momento na Região Sul, no
Mato Grosso do Sul e no Pará (Belo Monte). No começo deste mês, comunidades indígenas organizaram
ocupações em fazendas em Mato Grosso do Sul, bloquearam rodovias no Rio Grande
do Sul e ocuparam a sede do PT em Curitiba.
No Pará, ocuparam o canteiro de obras da Usina Hidrelétrica de Belo Monte,
no Rio Xingu.
Quem está com
os indígenas?
O conflito
indígena tem praticamente as dimensões do Brasil. Atualmente, as demarcações de
terras indígenas estão provocando conflitos em 212 áreas do
país. Além desses, a Funai tem mais 339 pedidos de demarcação
parados na mesa de seus técnicos e que ainda não passaram sequer pela análise
inicial. Isso para dimensionar, minimamente, a questão. A título de exemplo, no Paraná, são 7 as ares
sob risco de conflito entre índios e ruralistas; e no Rio Grande do Sul, 17.
Mas, como o movimento social e eclesial tem se posicionado em relação aos
últimos acontecimentos envolvendo indígenas em diversas partes do Brasil?
De modo
geral, e timidamente, o movimento social tem se manifestado. No começo de
março, organizações nacionais e internacionais publicaram manifesto em apoio
e defesa dos povos indígenas do Mato Grosso do Sul. Cerca de 90 entidades,
manifestam “que é obrigação da nação brasileira, tanto governo, como sociedade
civil, a defesa intransigente do direito à vida, a integridade física e mental,
da liberdade e da segurança pessoal dos povos indígenas de Mato Grosso do Sul,
entendendo que qualquer forma de violência física ou mental contra qualquer
membro dessas comunidades devem ser exemplarmente punidos”. Trata-se da
referência à morte do indígena Kaiowá Denilson Barbosa, de 15
anos, morador da aldeia Tey'ikue, que foi encontrado morto em 17 de fevereiro,
no município de Caarapó (MS). Ao mesmo tempo, “apoiam incondicionalmente a
defesa da posse das terras tradicionais pelos povos indígenas, bem como, apoiam
as demarcações das terras indígenas e do amplo acesso desses povos aos recursos
nelas existentes, única forma de colocar fim às violações de direitos e à
violência contra que vem sendo imposta a esses povos, sendo urgente que o
Estado Brasileiro, através do Governo Federal assuma as obrigações
constitucionais de respeitar, proteger e garantir a vida e os direitos humanos
dos povos indígenas”.
Outro
manifesto é dos movimentos sociais, entidades e
organismos de defesa dos direitos humanos de Mato Grosso do Sul.
Lançado no começo deste mês, os signatários manifestam “irrestrita e
incondicional solidariedade com o Povo Terena”, condenam e repudiam os fatos
acontecidos na Terra Indígena Buriti e responsabilizam pelos
mesmos o Governo do Estado do MS, o Poder Judiciário, o Estado Brasileiro e o
Governo Federal. Além disso, exigem a imediata libertação dos 18 indígenas que
estão presos na Policia Federal.
Também a CUT e
a Via Campesina se manifestaram. De modo geral, as
manifestações têm sido relativamente tímidas e bem polidas, para não ferir
sensibilidades. E isso com a intenção de poder dizer: “Bem, nós nos
manifestamos”. Ao mesmo tempo, transparece a preocupação de não se indispor abertamente
com o governo.
Um grupo
de cinco ativistas ligados à defesa dos direitos humanos e indígenas está
circulando na internet uma carta aberta à
presidentaDilma Rousseff, que critica o governo federal e, em
particular, a ministra da Casa Civil, Gleisi Hoffmann. Assinam Dalmo
Dallari, Gilberto Azanha, Marcelo Zelic, Anivaldo
Padilha e Roberto Monte. O texto condena o plano do
governo de incluir órgãos ligados ao setor agrícola, como a Embrapa, na
análise das demarcações de terras indígenas, considerando-o responsável pelo
acirramento dos conflitos entre índios e produtores rurais, em especial no Mato
Grosso do Sul.
Mais
incisiva tem sido a posição apresentada pela Conferência Nacional dos
Bispos do Brasil (CNBB). Uma reunião entre o governo e a Conferência
Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB) deixou claras as opiniões
divergentes de ambos sobre o papel da Funai. A ministra-chefe
da Casa Civil, Gleisi Hoffmann, afirmou que o órgão não deve ser o
único responsável pela demarcação de terras indígenas; já o secretário-geral da CNBB, d.
Leonardo Steiner, disse esperar que a fundação não tenha suas funções esvaziadas. Dom Leonardo ressaltou
que aCNBB sempre foi contra a suspensão das demarcações, como
aconteceu nas últimas semanas no Paraná e Rio Grande do Sul, por ordem expressa
da ministra Gleisi.
O
secretário-geral da CNBB pediu para a ministra que o Poder
Executivo marcasse uma reunião e ouvisse os povos indígenas. Durante a
coletiva, Gleisi Hoffmann afirmou que atenderá ao pedido e que
as negociações sobre o processo de demarcação serão feitas até o fim do
semestre.
A visita
de Gleisi Hoffmann à CNBB deve ser
compreendida no escopo de uma tentativa de pedir ao secretário-geral para que
ele “acalme” oCIMI.
O CIMI –
Conselho Indigenista Missionário, ligado à CNBB, que é
justamente a grande voz da sociedade civil neste momento: decidido, firme,
forte, contundente, sem peias... Após completar 40 anos em 2012,
este organismo continua mais vivo do que nunca. Não sofreu os desgastes do
tempo. Pelo contrário, à medida que outros movimentos sociais e eclesiais e
entidades entraram em crise, o CIMI foi mantendo sua capacidade
de fazer a defesa dos povos indígenas, seja durante a ditadura militar, seja em
tempos de democracia política. Convém ressaltar que o CIMI não
é uma entidade de indígenas – estes têm seus fóruns próprios e autônomos –, mas
de assessoria à luta indígena, o que a diferencia, por exemplo, das pastorais
sociais.
Em nota
divulgada no começo de junho, o CIMI diz que “o
governo Dilma aprofundou o processo de retração de demarcações
das terras indígenas. É o governo que menos demarca terras indígenas desde a
ditadura militar. O governo também tomou medidas administrativas lesivas aos
direitos dos povos”. Em outra passagem a nota diz: “partindo de um pressuposto
equivocado, o governo adota e anuncia medidas equivocadas para tentar resolver
os conflitos por ele criados”.
Em
seguida, o CIMI elenca quatro pontos para tentar solucionar
verdadeiramente os conflitos envolvendo povos indígenas e o agronegócio: “a)
destravar os processos de demarcação, tanto no campo administrativo, quanto no
campo judicial; b) ouvir os povos indígenas; c) revogar os próprios
instrumentos de ataque aos povos, tais como, as portarias 419/2011 e 303/2012 e
o Decreto 7957/2013; d) mobilizar sua ampla base de apoio no Congresso a fim de
que se evite os retrocessos almejados pelos ruralistas quanto aos direitos dos
povos”.
Em maio
passado, foi a vez da Articulação dos Povos Indígenas da Região Sul – ARPINSUL manifestar-se
contra as medidas do governo: “É absurdo submeter à Embrapa, uma empresa de
pesquisa do governo, a avaliação dos processos demarcatórios das terras
indígenas. Isto é no mínimo um ato nefasto, na medida em que coloca por terra o
trabalho sério de técnicos do próprio governo, para desavergonhadamente
privilegiar o agronegócio!”. Em outra passagem a nota diz também: “A falha não
é da Funai, a falha se deve ao conjunto de decisões
equivocadas que o Estado Brasileiro tem tomado em relação aos Povos Indígenas,
que agora são colocados publicamente como os inimigos do governo e do
agronegócio e consequentemente do desenvolvimento”.
Garantias da
Constituição Federal
No
contexto deste conflito, alguns analistas retomam o que é uma conquista dos
indígenas e seus defensores – e que foi incorporada à Constituição de 1988.
Trata-se do artigo 231. “A aplicação do artigo 231 da Constituição resultaria
no reconhecimento de terras indígenas em extensão suficiente para garantir a
reprodução física e cultural de seus ocupantes. Já há e ainda haverá situações
em que sua aplicação não será suficiente para prover terras em extensão mínima
que garanta a sobrevivência e a reprodução cultural de grupos específicos. Não
faz sentido desprover de direitos as pessoas que dispõem de títulos legítimos e
às quais não se pode atribuir responsabilidades por políticas impostas aos
índios no passado pela União ou pelos estados”, escreve Márcio Santilli.
Washington Novaes, por sua vez, diz que “precisamos relembrar o parecer do respeitado constitucionalista José Afonso da Silva no processo em que o STF reconheceu os direitos dos índios ianomâmis a suas terras em Roraima. Catedrático de universidades, assessor deMário Covas na Constituinte de 1988, secretário de Segurança Pública em São Paulo, o professor José Afonso liquidou a questão ao demonstrar que o reconhecimento dos indígenas a terras por eles ocupadas imemorialmente vem da legislação de Portugal, desde 1640”.
Prossegue Novaes:
“Foi mantido pela legislação do século seguinte, chegou à nossa primeira
Constituição, foi preservado nas de 1934, 1967 e 1988 - nesta, com o
reconhecimento de que a demarcação de suas terras é um ato ‘meramente
declaratório’, antecedido pelo ‘direito originário’ que está no artigo 231. ‘A
demarcação’, diz o parecer, ‘não cria nem extingue direitos, reconhece apenas a
situação de fato e o direito consequente’. E sendo assim, ‘a localização e
extensão da terra indígena não é determinada segundo critérios de oportunidade
e conveniência do poder público, porque o critério que define a localização e a
extensão das terras é o da ocupação tradicional, ou seja, a demarcação tem de
coincidir, precisamente, com as terras tradicionalmente ocupadas pelos índios,
definidas cientificamente por via antropológica’. E isso, conclui ele, não
ameaça a soberania nacional nem a atuação das Forças Armadas”.
É preciso
recordar que há 25 anos, a questão indígena tinha uma penetrabilidade social
bem maior que tem hoje. Hoje, lutam com suas próprias forças. A ocupação do canteiro de Belo Monte,
por exemplo, mostra o poder de mobilização que eles têm hoje. Não é qualquer
movimento social que consegue parar hoje uma obra gigantesca como essa.
Igualmente simbólica é a ida a Brasília para conversar com o Ministro Gilberto
Carvalho. Não aceitaram que a conversa se restringisse a uma comissão de
representantes – prática comum entre o movimento sindical e social – dos Munduruku.
Obrigaram o governo a ceder também neste quesito, fazendo com que
disponibilizasse dois aviões para
levar cerca de 140 índios para Brasília. Não foram apenas homens, mas mulheres
e crianças. Foram recebidos em audiência e saíram insatisfeitos com as propostas do
governo.
Tuitadas indígenas
ruy
sposati @ruysposati
Melhor foto de hoje da violência da polícia legislativa contra os Munduruku. Pena que tem a marca d´água http://bit.ly/14EDwnj
Melhor foto de hoje da violência da polícia legislativa contra os Munduruku. Pena que tem a marca d´água http://bit.ly/14EDwnj
E Viveiros
de Castro @nemoid321
Genocídio Brasileiro - YouTube http://bit.ly/19Oxer9
Genocídio Brasileiro - YouTube http://bit.ly/19Oxer9
Idelber
Avelar @iavelar
"Nós temos uma população indígena e não podemos negar essa existência", disse Dilma. Clássico ato falho freudiano http://on.fb.me/1bavc2d
"Nós temos uma população indígena e não podemos negar essa existência", disse Dilma. Clássico ato falho freudiano http://on.fb.me/1bavc2d
Palmério
Dória @palmeriodoria
A memória de Cândido Rondon e Darcy Ribeiro está sendo pisoteada pelo governo.
A memória de Cândido Rondon e Darcy Ribeiro está sendo pisoteada pelo governo.
Orlando
Calheiros @ocalheiros
Povo Terena chora a morte de seu guerreiro: http://youtu.be/MG1CqoWon5M via @youtube
Povo Terena chora a morte de seu guerreiro: http://youtu.be/MG1CqoWon5M via @youtube
cynara
menezes @cynaramenezes
gilberto carvalho: "não temos medo de dizer que erramos em muitas coisas lá em belo monte". nossa, até que enfim http://bit.ly/ZOKha5
gilberto carvalho: "não temos medo de dizer que erramos em muitas coisas lá em belo monte". nossa, até que enfim http://bit.ly/ZOKha5
helenapalm
@helenapalm
Paulo Maldos sobre a consulta indígena: "nenhum setor da população tem direito a vetar nada". Potoca, o Feliciano veta o que quiser.
Paulo Maldos sobre a consulta indígena: "nenhum setor da população tem direito a vetar nada". Potoca, o Feliciano veta o que quiser.
Kelly
Bento @kellydsbento
Sobre o protesto dos índios q n saiu na tv, digo: nós estamos errados. Eles já estavam aqui qdo os colonizadores chegaram. Devemos respeito!
Sobre o protesto dos índios q n saiu na tv, digo: nós estamos errados. Eles já estavam aqui qdo os colonizadores chegaram. Devemos respeito!
Brent
Millikan @BrentMillikan
Gilberto Carvalho no JN: O governo não vai abrir mão de seus projetos de megabarragens na Amazônia http://bit.ly/10XfRgW @IntlRivers
Gilberto Carvalho no JN: O governo não vai abrir mão de seus projetos de megabarragens na Amazônia http://bit.ly/10XfRgW @IntlRivers
Felipe
Milanez @felipedjeguaka
Porque do Mato Grosso do Sul melhor não falar nada, né RT @inst_lula Lula termina falando da importância da luta pela paz na Colômbia.
Porque do Mato Grosso do Sul melhor não falar nada, né RT @inst_lula Lula termina falando da importância da luta pela paz na Colômbia.
ruy
sposati @ruysposati
Nem o Jornal Nacional conseguiu ignorar o levante indígena que tá ocorrendo no país - apesar de todo o conservadorismo embutido. Saweh!
Nem o Jornal Nacional conseguiu ignorar o levante indígena que tá ocorrendo no país - apesar de todo o conservadorismo embutido. Saweh!
era
Paoloni @verapaoloni
Patrícia Poeta chamou os índios mundurucu de munducuru…trocou td e sê vê bem a "atenção" da grobo @midiacrucis @maria_fro @EdirGaya
Patrícia Poeta chamou os índios mundurucu de munducuru…trocou td e sê vê bem a "atenção" da grobo @midiacrucis @maria_fro @EdirGaya
Orlando
Calheiros @ocalheiros
Deixa eu ver se entendi direito, segundo o @JornalOGlobo, os indígenas, além de serem manipulados por ongs, também atuam em prol de bandidos
Deixa eu ver se entendi direito, segundo o @JornalOGlobo, os indígenas, além de serem manipulados por ongs, também atuam em prol de bandidos
Sonia
Guarani-Kaiowá @PersonalEscrito
Este é um dos editoriais mais filhos da puta dessa mídia asquerosa chamada Globo http://oglobo.globo.com/opiniao/funai-amplia-inseguranca-juridica-8582529 … Que apareça 1 governista falando PIG
Este é um dos editoriais mais filhos da puta dessa mídia asquerosa chamada Globo http://oglobo.globo.com/opiniao/funai-amplia-inseguranca-juridica-8582529 … Que apareça 1 governista falando PIG
Fórum das
Letras @forumdasletras
"Na língua do meu povo, munduruku, não existe a palavra futuro, só passado e presente. Os rituais nos ligam a nossa ancestralidade"
"Na língua do meu povo, munduruku, não existe a palavra futuro, só passado e presente. Os rituais nos ligam a nossa ancestralidade"
Munduruku diz que o ritual é uma
memória de pertencimento: batemos os pés no chão, dançamos, nos lembramos que
não somos donos, somos parte
Joao
Meirelles Filho @JoaoMeirelles
Globo Em Pauta desinforma qdo diz que índios tem mais terras que agropecuária. Só a pecuária tem 200 milhões de ha - o dobro que índios
Globo Em Pauta desinforma qdo diz que índios tem mais terras que agropecuária. Só a pecuária tem 200 milhões de ha - o dobro que índios
Marcelo
Rubens Paiva @marcelorubens
Retiraram da FUNAI a exclusividade de demarcar terras indígenas e entregaram pro PMDB. Em outras palavras, os Bandeirantes estão voltando
Retiraram da FUNAI a exclusividade de demarcar terras indígenas e entregaram pro PMDB. Em outras palavras, os Bandeirantes estão voltando
Chico
Alencar @depChicoAlencar
Terra indígena precisa ser respeitada. Mas vida indígena está cada dia mais ameaçada! Brasil em marcha a ré.
Terra indígena precisa ser respeitada. Mas vida indígena está cada dia mais ameaçada! Brasil em marcha a ré.
Roberto
Smeraldi @robertosmeraldi
O sr. Bacha, na decl. de renda, declara a fazenda Buriti por R$ 333 mil e zero cabeças de gado. Pronto: é só indenizá-lo neste valor, certo?
O sr. Bacha, na decl. de renda, declara a fazenda Buriti por R$ 333 mil e zero cabeças de gado. Pronto: é só indenizá-lo neste valor, certo?
Idelber
Avelar @iavelar
Dilma Rousseff faz uma reunião para discutir a questão indígena na qual participa a Embrapa, mas não a Funai http://on.fb.me/19uhfOJ
Dilma Rousseff faz uma reunião para discutir a questão indígena na qual participa a Embrapa, mas não a Funai http://on.fb.me/19uhfOJ
André
Trigueiro @andretrig
Há um movimento entre políticos que querem reduzir as terras indígenas já homologadas, até protegidas e Pques Nacionais (Megaron Txucarramãe)
Há um movimento entre políticos que querem reduzir as terras indígenas já homologadas, até protegidas e Pques Nacionais (Megaron Txucarramãe)
E Viveiros
de Castro @nemoid321
Muita falta de vergonha, pedir "reintegração de posse" contra os possuidores originários da terra.
Muita falta de vergonha, pedir "reintegração de posse" contra os possuidores originários da terra.
Paulo
Barreto @paulogbarreto
@dilmabr a 2a mais poderosa do mundo não faz acordo com índios em Belo Monte. Desinteresse? @blogplanalto
@dilmabr a 2a mais poderosa do mundo não faz acordo com índios em Belo Monte. Desinteresse? @blogplanalto
helenapalm
@helenapalm
A consulta não foi feita em Belo Monte, não foi feita em Teles Pires e não está sendo feita no Tapajós. http://bit.ly/10BYlPi
A consulta não foi feita em Belo Monte, não foi feita em Teles Pires e não está sendo feita no Tapajós. http://bit.ly/10BYlPi
Sergio
Amadeu @samadeu
... estou decepcionado com o governo Dilma. Belo Monte, ataque às terras indígenas, passar a FUNAI para o Ministério do Agronegócio...
... estou decepcionado com o governo Dilma. Belo Monte, ataque às terras indígenas, passar a FUNAI para o Ministério do Agronegócio...
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