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segunda-feira, 14 de outubro de 2013

Hidrelétrica de Teles Pires. “A floresta é destruída sem cerimônia e deixa a terra nua, vulnerável e sangrando”. Entrevista especial com Telma Monteiro

11 de outubro de 2013
Fonte: IHU On-Line

A determinação do Tribunal Regional Federal da 1ª Região de paralisar as obras da usina hidrelétrica de Teles Pires está relacionada à falta do Estudo do Componente Indígena – ECI, apesar da Licença Prévia para a construção da hidrelétrica ter sido concedida pelo Ibama em 2010. De acordo com Telma Monteiro, “o Ibama emitiu a Licença Prévia e a Licença de Instalação sem o ECI, que deveria ser parte integrante do EIA/RIMA”.
Telma explica que, em 2008, ano em que se iniciou o processo de licenciamento da hidrelétrica, “foi solicitado que se verificasse e apontasse a existência de populações indígenas na região do empreendimento. No entanto, o estudo e a caracterização das terras indígenas, de grupos, comunidades étnicas remanescentes e aldeias não foram, até hoje, devidamente analisados”. E acrescenta: “Há uma lacuna no Estudo do Componente Indígena – ECI que deve ser feito pelo empreendedor e apresentado à Funai”.
Na entrevista a seguir, concedida à IHU On-Line por e-mail, Telma esclarece quais são os principais equívocos em torno da construção da hidrelétrica e chama a atenção para o trecho do rio Teles Pires onde será construído o reservatório da usina. Na avaliação dela, o local é “mal estudado”, uma vez que a “área é constituída por ambientes naturais preservados, em especial nas encostas que desaguam no rio. O canteiro de obras, a barragem e as demais estruturas já começaram a induzir ao desmatamento e à ocupação irregular”.
Telma Monteiro é especialista em análise de processos de licenciamento ambiental e coordenadora de Energia e Infraestrutura Amazônia da Associação de Defesa Etnoambiental Kanindé.

Confira a entrevista.

IHU On-Line – Por quais razões o Tribunal Regional Federal da 1ª Região determinou a paralisação da usina de Teles Pires?
Telma Monteiro – A determinação se deu em função do pedido do Ministério Público Federal em conjunto com o Ministério Público do estado de Mato Grosso para suspender o licenciamento ambiental e as obras da Usina Hidrelétrica Teles Pires até que seja realizado o Estudo do Componente Indígena – ECI.
Para o desembargador Souza Prudente, o Ibama emitiu a Licença Prévia e a Licença de Instalação sem o ECI, que deveria ser parte integrante do EIA/RIMA. Há, também, outra ação em tramitação, anterior a essa, mostrando que não houve a consulta prévia, livre e informada aos povos indígenas que sofrerão os impactos do empreendimento, violando assim o artigo 231 da Constituição Federal e o artigo 6º da Convenção 169 da Organização Internacional do Trabalho – OIT.
Os ministérios públicos pediram a paralisação sob o argumento de que o ECI é o documento que considera os significativos impactos específicos nas comunidades indígenas e as consequências da destruição das corredeiras Sete Quedas, no rio Teles Pires, consideradas patrimônio sagrado.
Mas, no dia 26 de setembro passado, a decisão do ministro do Supremo Tribunal Federal (STF), Ricardo Lewandowski, derrubou a decisão do Tribunal Regional Federal da 1ª Região (TRF-1) e mandou que as obras fossem retomadas. Como tem acontecido ao recorrer das decisões que atendem ao pedido do MP, a Advocacia Geral da União – AGU alegou que parar a UHE Teles Pires acarretaria “grave lesão à ordem econômica” e “desequilíbrio no mercado de distribuição de energia elétrica”. Esse argumento também é recorrente.

IHU On-Line – Como avalia o estudo de impacto ambiental (EIA/RIMA) da Usina de Teles Pires? Quais as falhas do estudo?
Telma Monteiro – A falha nos estudos indígenas é um exemplo grave. Em 2008, início do processo de licenciamento da UHE Teles Pires, foi solicitado que se verificasse e apontasse a existência de populações indígenas na região do empreendimento. No entanto, o estudo e a caracterização das terras indígenas, de grupos, comunidades étnicas remanescentes e aldeias não foram, até hoje, devidamente analisados. Há uma lacuna no Estudo do Componente Indígena – ECI que deve ser feito pelo empreendedor e apresentado à Funai.
Outro problema mal estudado é o trecho do rio Teles Pires onde pretendem fazer o reservatório. A área é constituída por ambientes naturais preservados, em especial nas encostas que desaguam no rio. O canteiro de obras, a barragem e as demais estruturas já começaram a induzir ao desmatamento e à ocupação irregular.
Outra questão que tem sido insistentemente apontada nas ações civis públicas ajuizadas pelo Ministério Público, que o judiciário tem ignorado, é a necessidade de um estudo dos impactos sinérgicos e cumulativos decorrentes da construção de uma sequência de barragens no rio Teles Pires. Os efeitos desse conjunto acabam mascarados com os procedimentos individualizados de licenciamento ambiental.
O próprio Ibama, responsável pelo processo de licenciamento e concessão das licenças Prévia e de Instalação da UHE Teles Pires, já havia apontado a relação com o projeto da UHE São Manoel, a jusante (rio abaixo). A região não é antropizada e apresenta uma paisagem com extensas áreas de florestas e espécies vegetais que podem sofrer com a inundação permanente provocada pelos empreendimentos.
Enfim, os impactos negativos e mal dimensionados nos estudos, na verdade, são recorrentes em todos os projetos hidrelétricos que estão sendo licenciados. Problemas sérios continuam sendo tratados com displicência, como a questão indígena, as alterações na qualidade da água, nos hábitats aquáticos e terrestres, nas populações de fauna terrestre, na pesca artesanal, no turismo, apenas para citar alguns. Comentar e apontar as falhas nos estudos ambientais de projetos hidrelétricos em andamento é um trabalho hercúleo, que necessitaria o espaço de alguns volumes escritos.

IHU On-Line – Como está o processo de construção de Teles Pires?
Telma Monteiro – As obras continuam e os impactos também. Apenas para relembrar o processo, a Licença Prévia foi concedida pelo Ibama em dezembro de 2010. Em julho de 2011 o Contrato de Concessão foi assinado, e em 19 agosto o Ibama concedeu a Licença de Instalação que permitiu que as obras iniciassem imediatamente, no dia 22 de agosto de 2011.
Basta acessar as imagens das obras da UHE Teles Pires na internet para ter uma ideia da dimensão do estrago. A floresta é destruída sem cerimônia e deixa exposta a terra nua e vulnerável à mercê das máquinas que a farão sangrar. O rio Teles Pires, maior vítima até agora, e seu mundo submerso começam a dar sinais de sofrimento. Então, o que há para dizer mais? As palavras já não bastam para descrever tanta insensatez.

IHU On-Line – De que maneira Teles Pires impacta as comunidades indígenas Munduruku e Kayabi?
Telma Monteiro – Já bem antes da concessão das licenças, os impactos começaram para os indígenas Kayabi e Munduruku. A presença de pesquisadores, de trabalhadores que perfuram o solo, abrem picadas na mata já é o prenúncio da tempestade. A paz acabou para eles, pois as alterações das águas e da pesca com o início das obras, as explosões de rochas, a movimentação de terra e a presença de estranhos no entorno de suas aldeias conduzem ao estresse social e cultural.
Imagine, por exemplo, o grau de conflito que leva a presença de trabalhadores da construção civil contratados para construir um posto de saúde numa aldeia isolada. Não é preciso ser antropólogo para apreender as dimensões dessa intromissão na vida familiar, na cultura e no hábitat dos povos indígenas.
Há ainda outros problemas graves com o assédio a que eles têm se submetido no sentido de negociar e aceitar as chamadas compensações. Nem a consulta prévia a que os povos indígenas têm direito, conforme a Convenção 169 da OIT da qual o Brasil é signatário, está sendo respeitada. Os seus direitos não estão sendo respeitados. Não bastasse tudo isso, a área das corredeiras Sete Quedas, local sagrado dos indígenas, será destruída. Esse impacto foi objeto de ação ajuizada pelo MPF.

IHU On-Line – Como você avalia o debate acerca da construção de hidrelétricas de reservatório e de fio d’água? Num primeiro momento, o governo defendeu a construção de hidrelétricas a fio d’água, mas depois voltou atrás, dizendo que as de reservatório garantem a sustentabilidade energética. O que está por trás de cada projeto?
Telma Monteiro – Desde que os primeiros projetos hidrelétricos da era Lula foram negociados na Amazônia, o discurso da hidrelétrica a fio d’água tem sido uma espécie de canto da sereia. O reservatório, na teoria, ocuparia apenas o leito do rio no seu nível mais alto e não haveria impactos ambientais. No entanto, os idealizadores desse conceito omitem o fato de que as cheias na natureza são sazonais e o rio de planície é como um grande pulmão que se enche de ar e depois o expele. Essa é a dinâmica que mantém a vida dos igarapés, das ilhas, das margens.
Áreas que só estariam inundadas em uma determinada época do ano ficariam permanentemente inundadas com o reservatório a fio d’água, criando uma alteração no ecossistema que ainda não foi estudado. Outros problemas já estão ocorrendo no rio Madeira, com a construção das hidrelétricas Santo Antônio e Jirau, mesmo com os reservatórios a fio d’água. O impacto das águas dos vertedouros da UHE Santo Antônio que estão destruindo a margem direita do rio Madeira ainda está sem solução. Isso não foi sequer previsto nos estudos, pois é inédito.
O que, então, nos reservará de surpresas a construção desse conjunto de usinas no rio Teles Pires?

IHU On-Line – Ao comentar o caso da licença ambiental de Pai Querê, indeferida pelo Ibama, você assinala que os projetos hidrelétricos têm os mesmos impactos, mas recebem tratamento diferenciado pelo Ibama. Por que isso acontece?
Telma Monteiro – Já não é a primeira vez que o Ibama usa de dois pesos e duas medidas em licenciamento de hidrelétricas. Além de Pai Querê, conheço outro caso, a UHE Ipueiras, no estado do Tocantins, em que o Ibama decidiu pela inviabilidade do projeto, pois ele produziria impactos irreversíveis à biodiversidade do Bioma Cerrado.
O parecer técnico de Ipueiras data de setembro de 2005, e a conclusão descreve os impactos em 84 mil hectares de vegetação nativa em ótimo e bom estado de conservação. A ictiofauna do rio Tocantins seria irreversivelmente comprometida. E como fica a biodiversidade dos rios Teles Pires, Tapajós, Xingu, Madeira?

IHU On-Line – Deseja acrescentar algo?
Telma Monteiro – Sim. Os responsáveis pelos empreendimentos hidrelétricos têm demonstrado absoluto descaso para com os impactos sobre os povos indígenas. Como já afirmei muitas vezes, os impactos começam com a notícia de que haverá estudos e pesquisadores nas comunidades.
Isso vira uma bola de neve e o ECI só aparece depois das audiências públicas, quando na verdade ele deveria ser parte integrante do EIA/RIMA. Esse descaso resulta em acirramento de conflitos, aumento dos custos do projeto e atropelo do licenciamento ambiental.

quarta-feira, 4 de setembro de 2013

Quem disse que não terá impacto em terra indígena?


"O ideal seria que tivéssemos um avanço de hidrelétricas na nossa matriz, porque elas são uma fonte mais barata e com emissão irrelevante de dióxido de carbono. Vê-se também que os projetos hidrelétricos podem também atuar como vetores de preservação ambiental. Mas temos visto muitas dificuldades. Se conseguíssemos avançar com a construção de usinas hidrelétricas, mesmo que fossem a fio d"água, já seria um grande progresso. Nem isso, em alguns casos, temos conseguido. Temos de aumentar a aceitação desses projetos em toda a sociedade. Um exemplo é o da hidrelétrica de São Manoel, no rio Teles Pires. O empreendimento não tem reservatório, e seu impacto sobre a comunidade indígena é nulo. Mesmo assim, há mais de dois anos, tentamos obter o licenciamento. Acho que será difícil viabilizar mudanças no curto prazo entre a sociedade e conseguirmos avançar as usinas com reservatórios." (Maurício Tolmasquim, presidente da EPE, em entrevista para o Valor Econômico em 02/09/2013)

Por Telma Monteiro

Para desconstruir o discurso do presidente da Empresa de Pesquisa Energética (EPE), Maurício Tolmasquim, dada ao Valor Econômico, mostrarei a existência de um relatório do Componente Indígena (ECI), apresentado pela EPE, que comprova os impactos na terra indígena Kayabi e que foi omitido no processo de licenciamento da hidrelétrica São Manoel.  

O governo quer construir a hidrelétrica São Manoel, no rio Teles Pires, a 300 metros da divisa com a TI Kayabi. Em 25 de abril deste ano (2013) o decreto da homologação da TI Kayabi foi, finalmente, publicado no Diário Oficial. A TI tem mais de um milhão de hectares que pertencem aos povos Kayabi, Munduruku e Apiaká.


Segundo informações do Instituto Socioambiental (ISA), o plano do governo é instalar 16 hidrelétricas na Bacia do rio Tapajós onde vivem cerca de 10 mil indígenas nas TIs Munduruku, Kayabi e Saí Cinza.

O primeiro Estudo do Componente Indígena (ECI) da UHE São Manoel foi entregue pela EPE em agosto de 2010. Segundo a própria EPE, esse estudo foi pautado pelo Termo de Referência (TR) emitido pela Funai. Nessa época, a equipe que desenvolveu as atividades de campo não teve autorização dos Munduruku para acesso às suas comunidades.

A Funai não se satisfez com o ECI e pediu complementações, em especial sobre a questão antropológica. A EPE, então, contratou o antropólogo Dr. Frederico César Barbosa de Oliveira que já tinha experiência de convívio com as comunidades indígenas, da TI Kayabi, que seriam afetadas diretamente pela UHE São Manoel.

Em junho de 2011  foi entregue o trabalho de abordagem etnocultural e antropológica  dos impactos da UHE São Manoel sobre as comunidades indígenas. A Funai pediu nova complementação e solicitou uma expedição em campo, que foi realizada em outubro de 2011 e que se encerrou na aldeia Kururuzinho, na TI Kayabi.

Para pressionar o governo, os povos indígenas da TI Kayabi, insatisfeitos com a apresentação feita pelos técnicos sobre as hidrelétricas, retiveram na aldeia Kururuzinho os membros da expedição. Os reféns eram os funcionários da Funai, técnicos da EPE e o antropólogo Dr. Frederico de Oliveira. O ato foi um protesto contra as hidrelétricas planejadas no rio Teles Pires e contra a demora na demarcação de suas terras.

O novo relatório do antropólogo foi entregue à Funai em 02 de dezembro de 2011, porém sem a sua assinatura e no formato oficial da EPE. A Funai, então, requisitou a assinatura do antropólogo. A EPE só sanou o problema quando emitiu um novo documento, em setembro de 2012, com considerações ao relatório do Dr. Frederico Oliveira, desqualificando grande parte do trabalho dele. Em anexo, estava o relatório na íntegra e devidamente assinado.  

O documento da EPE informa que algumas partes do relatório oficial do Dr. Frederico Oliveira não seriam de sua competência técnica. Visivelmente, muitas das considerações do antropólogo em seu relatório contrariaram a "necessidade" técnica da EPE e o objetivo de enfiar a UHE São Manoel goela abaixo dos grupos indígenas da TI Kayabi.

Muitas das afirmações do antropólogo foram desqualificadas no documento da EPE. O Dr. Oliveira se refere ao EIA como um estudo que tem por objetivo atestar a viabilidade do empreendimento. Para a EPE não seria bem assim. Outro exemplo do que desagradou a EPE é a afirmação do antropólogo de que o seu trabalho apresenta comentários e recomendações que auxiliam na compreensão da viabilidade ou não da UHE de São Manoel.

O Dr. Frederico Oliveira mostrou que a construção da UHE São Manoel vai mexer com um local sagrado, relacionado à água que atinge um conjunto amplo de cosmologias indígenas. Segundo ele, seria motivo suficiente para inviabilizar qualquer tipo de empreendimento no local. Nesse ponto ele aproveita para fazer uma crítica mordaz ao que chama de "cosmografia do desenvolvimento (sustentável) econômico" que enxerga a Amazônia como um território para o crescimento econômico e que trata os povos indígenas e tradicionais como passivos e marginais, sob a desculpa de beneficiar a nação com mais energia.

O antropólogo apontou uma defasagem nos estudos antropológicos e ambientais que envolvem as populações indígenas da Amazônia. Criticou o fato de que se pretende que o homem exerça o domínio sobre a natureza e que os estudos ambientais de aproveitamentos hidrelétricos se pautem por uma economia ambiental.  Mas, o que mais incomodou a EPE foi a afirmação de que os representantes do governo se preocupam em não dar o devido destaque ao componente humano para não inviabilizar o projeto técnico.

Com relação às visitas às aldeias, o Dr. Frederico Oliveira mencionou que os Kayabi e as demais etnias se mostraram indignados com a pesquisa de apenas nove dias em suas terras e comunidades, e com o relatório a ser entregue oito dias depois de concluídos os trabalhos. Em suma, um relatório baseado em pesquisa  de campo insuficiente para determinar o quanto a construção da UHE São Manoel seria inviável sob a ótica do componente indígena.

Sobre o episódio na aldeia Kururuzinho, o antropólogo analisou como sendo "restrita a habilidade do governo federal"  no diálogo com grupos minoritários e marginalizados que precisam lançar mão de atitudes extremas, como  nesse caso, ao reterem à força na aldeia, os integrantes da expedição.

Algumas questões em aberto constam das conclusões do relatório do Dr.Frederico Oliveira, como a opção estratégica do planejamento energético do governo de se construir várias usinas em sequência no rio Teles Pires. Isso, segundo ele, chama menos atenção internacional para os impactos, uma vez que eles serão diluídos, do que construir uma mega usina de magnitude suficiente para produzir uma hecatombe na Amazônia;  ou sobre o fato de os estrategistas, como ele chama os planejadores do setor elétrico, não atentarem para a existência de pessoas que vivem secularmente em locais escolhidos, agora, para a construção de projetos hidrelétricos. Pessoas que não serão beneficiadas com esse "progresso" e que acabarão ficando com o ônus ambiental deles decorrentes.

Vou ainda mais longe ao complementar o antropólogo. A opção de construir inúmeras usinas hidrelétricas nos rios amazônicos nada mais é do que uma estratégia para beneficiar mais grupos empresariais do setor elétrico ao mesmo tempo. Muitas obras significam muito mais empreiteiras a praticar sobrepreços e superfaturamentos, mais financiamentos com taxas abaixo do mercado subsidiadas pelo BNDES, muito mais dinheiro para campanhas eleitorais, mais aditivos de contratos de obras que dobram e triplicam seus custos iniciais aprovados, nesse troca troca corrupto.  

O antropólogo Dr. Frederico Oliveira afirma, ainda, nas conclusões do seu relatório , que existe "um aspecto que aponta alguns vícios na gestão do componente humano para a UHE São Manoel diz respeito ao baixo grau de especificidade dos programas ambientais em relação à realidade socioambiental do Baixo Teles Pires", pois esses programas objetivam apenas compensar impactos não apontados sobre a concepção ecológica indígena.  Ele cita o artigo 6° da Convenção 169 que atribui ao Estado a obrigação de fazer consulta prévia aos povos indígenas sobre a instalação de empreendimentos que afetem suas terras. Afirma que os procedimentos, desde 2010, com as oficinas e encontros promovidos pela EPE, não atenderam à Convenção 169 da OIT, conforme o entendimento dos próprios indígenas e da Funai.  

Aqui cabe relembrar que sempre que se fala na Convenção 169, as instituições do governo chamam de "consulta" os "diálogos" em encontros, oficinas ou apresentações dos projetos, que promovem ao longo do processo. Há uma insistência do aparato governamental em fazer reuniões com as comunidades e com isso tentar legitimar o projeto e seus impactos. Isso é recorrente e subliminar. O mesmo tem acontecido com as Audiências Públicas chamadas pelo Ibama, pois se tornaram apenas uma praxe que visa legitimar a concessão de licenças prévias.

Ainda na conclusão do seu relatório rechaçado pela EPE, o Dr. Frederico Oliveira dá seu parecer sobre a falta de estudos conclusivos dos impactos sobre a ictiofauna decorrentes da construção das UHEs Teles Pires (já em andamento e com sérios impactos) e São Manoel. Para ele, essa lacuna nos estudos torna extremamente temerária a implantação das hidrelétricas.  

Para finalizar, o antropólogo lamenta que tenha sido preciso chegar a uma etapa muito avançada, com previsão das audiências públicas e agenda para o leilão, para que fosse "possível exprimir com alguma propriedade o ponto de vista daqueles que serão os maiores afetados".

Abaixo transcrevo o depoimento do índio Munduruku Floriano Mores, um dos vários importantes e ilustrativos depoimentos colhidos pelo Dr. Frederico Oliveira ao longo do seu relatório:

“Nós sabemos de todos os acontecimentos sobre as usinas hidrelétricas, nós sabemos que essas notícias não são boas. Pra gente tem sido muito difícil, porque muitas pessoas nem estão podendo fazer seus trabalhos, porque a gente tá indo em todas as manifestações e audiências públicas sobre essas usinas. Onde o pessoal fala que muito que é contra, que não quer barragem, mas o problema é que é uma coisa que é falada lá na hora e lá mesmo isso termina. A FUNAI leva um relatório, a empresa fica sabendo, mas o mundo lá fora não fica sabendo da nossa preocupação. A gente vem lutando há muito tempo pra demarcação da nossa terra por muito tempo e até agora ninguém conseguiu, sempre embargando, com liminar, e quando o pessoal começa a falar na construção de uma barragem, que vai gerar muito emprego, muita renda pro Brasil, o governo rapidinho avança com esse projeto. A nossa preocupação é essa; nós não somos contra o progresso, como eu ouvi um deputado falar. A gente só queria que o governo olhasse um pouco mais pelos índios, primeiro fizesse a demarcação da nossa terra, depois viesse com calma conversar com a gente sobre a implantação dessa usina; quem sabe a gente podia negociar, conversar sobre os impactos, mas desse jeito é muito difícil pra gente conversar com esse pessoal que está querendo implantar a usina. Com essa notícia da implantação das usinas a gente começou a se mobilizar pra se manifestar contra. Nós achamos que pode ser muito prejudicial pra gente. Pelo menos se acontecer essa barragem, a gente gostaria de uma indenização que compensasse as coisas ruins. A gente sabe que muita gente vai vir pra cá, vai aumentar a bandidagem, esse pessoal vai querer explorar a nossa terra. Podia também esses pessoal puxar uma rede pra gerar uma energia aqui pra gente na aldeia. Já vai ser construída usina logo ali, eles podia fornecer essa energia 24 horas pra gente sem ter que pagar nada e a gente até podia ainda gerar alguma renda usando essa energia e comprar alguma coisa e algum alimento. Podia também ter outras pesquisas, com esses cientistas, será que ainda não acharam um meio de gerar energia que não seja assim de cachoeira? Porque eu acredito que deve ter. Daqui pra frente o pessoal só traz notícias espantosas para os índios.”

Dilma acionou dois ministérios para garantir a realização das APs

Devido aos acontecimentos ocorridos na aldeia Kururuzinho, o Gabinete de Segurança Institucional da Presidência da República enviou, em 9 de novembro de 2011, um ofício à Ministra do Meio Ambiente, Izabella Teixeira, com orientações diretas da Presidente Dilma Rousseff. As audiências públicas da UHE São Manoel deveriam ser realizadas por determinação expressa da presidente. Dilma mandou avisar o Ministério da Justiça e o Ministério da Defesa para providenciar segurança nos municípios de Paranaíta, Alta Floresta e Jacareacanga.

No ofício fica claro que, por ser obra prevista no PAC, a UHE São Manoel era objeto de atenção especial. A solicitação de segurança aos ministérios se deu "em função da existência de forte resistência da comunidade indígena da região", finaliza o texto.

As audiências não aconteceriam. Em 21 de novembro, em publicação no Diário Oficial da União (DOU), o Ibama comunicou a suspensão das APs.

O Ibama pede novos esclarecimentos no EIA

Em nova Nota Técnica (NT) do Ibama, de 8 de dezembro de 2011, mais uma vez os técnicos fazem considerações sobre o EIA da UHE São Manoel. Desta vez com questionamentos sobre atividades, impactos e diagnóstico.  

A conclusão foi curta e objetiva: a EPE devia apresentar "os esclarecimentos e complementações para que a equipe possa dar continuidade ao processo de avaliação dos Estudos Ambientais." A sugestão era para que fossem realizadas reuniões técnicas para discutir os itens apontados na NT.

Em 13 de dezembro o Ibama comunicou à EPE a necessidade de agendar as reuniões técnicas sobre as possíveis sinergias e impactos cumulativos das hidrelétricas São Manoel e Teles Pires.

A análise que resultou nessa NT, apontando mais falhas no EIA da UHE São Manoel,  foi o motivo pelo qual as APs marcadas para os dias 22, 23 e 24 de novembro foram sumariamente canceladas pelo Ibama.  

A EPE protocolizou um novo documento em resposta à NT do Ibama, em 06 de fevereiro de 2012. Os esclarecimentos, no entanto, deixaram de apresentar o aprofundamento dos efeitos sinérgicos entre as UHE São Manoel e UHE Teles Pires. A análise dos efeitos sinérgicos e cumulativos entre os dois empreendimentos tinha sido  objeto de Ação Civil Pública do Ministério Público.

Em outra Nota Técnica sobre o componente ictiofaunístico, de 01 de fevereiro de 2012, os técnicos do Ibama apontaram mais falhas e teceram considerações sobre questões importantes que precisavam de esclarecimentos dos autores do EIA. Segundo a nota havia necessidade de readequações e justificativas por parte do empreendedor para que se pudesse dar continuidade à análise do EIA da UHE São Manoel. Mais uma vez, no decorrer do processo de licenciamento iniciado em 2007,  o EIA estava sendo apontado pelo Ibama como inconsistente.

A EPE só apresentaria os esclarecimentos sobre o componente ictiofaunístico em março de 2013.

O processo de licenciamento da UHE São Manoel ficou praticamente parado até abril.  Nessa época, um despacho da então diretora do DILIC/Ibama, Gisela Damm Forattini, informou que a análise do EIA só seria concluída após a realização das audiências públicas. Acrescentava, também, que o próximo parecer técnico do Ibama, de maio de 2013, não era conclusivo com relação à concessão da Licença Prévia.

O Parecer Técnico 4510/2013 sobre a análise do EIA da UHE São Manoel e dos documentos anexados tem 222 páginas.  A conclusão é taxativa: ainda é preciso que o empreendedor apresente os dados contidos no parecer para que o processo de licenciamento continue. O resultado das audiências públicas será considerado na análise técnica para avaliação do projeto e se houver novos impactos identificados, mais complementações serão exigidas.

Somente agora, em 12 de agosto de 2013, o Ibama marcou as audiências públicas que estão previstas para os dias 27, 29 e 30 de setembro em Paranaíta (MT), Jacareacanga (PA) e Itaituba (PA), respectivamente.  O leilão da UHE São Manoel está planejado para acontecer em dezembro, segundo a EPE.

EMPRESA DE PESQUISA ENERGÉTICA_EXTRATO DE INSTRUMENTO CONTRATUAL - Nº do instrumento contratual: AS-EPE-330/2011; Licitação: Inexigibilidade de Licitação nº IN.EPE.022/2011; Contratante: Empresa de Pesquisa Energética - EPE; Contratado: FREDERICO CESAR BARBOSA DE OLIVEIRA; Objeto: prestação de serviços técnicos especializados de consultoria a ser prestado pelo Dr. Frederico César Barbosa de Oliveira, para realização de serviços de campo serviços de campo associado à Revisão e Complementação dos Estudos do Componente Indígena das UHE de Foz do Apiacás e São Manuel, solicitado pela Fundação Nacional do Índio (FUNAI).; Vigência: 07/10/2011 a 22/10/2012; Valor Total: R$ 24.235,13; Data de assinatura: 06/10/2011. (p. 137). Link da Informação  http://www.funai.gov.br/ultimas/Informe%20seii/2011/193-2011.htm

Acesse o relatório da EPE do Componente Indígena, na íntegra, clicando aqui

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