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quarta-feira, 11 de setembro de 2013

Rio Tapajós: Jornalista inglesa e sua equipe são hostilizados por pesquisador e homens da Força Nacional

Fonte: blog Língua Ferina


Conforme o blog Língua Ferina anunciou, duas jornalistas do Latin America Bureau (LAB), Sue Branford e Nayana Fernandez, chegaram à cidade de Santarém (PA)  no dia 5 de setembro. Elas passarão um mês viajando na região para ver o impacto de “grandes projetos de desenvolvimento” sobre comunidades locais, especialmente mineração e hidrelétricas. No dia 07 de setembro, enquanto protestos e repressões sacudiam novamente o país, as jornalistas se dirigiram para o município de Jacareacanga, área onde indígenas Munduruku resistem ao chamado Complexo Hidrelétrico do Tapajós.

região está militarizada pelo governo federal , que enviou soldados da Força Nacional de Segurança e do Exército para escoltar estudiosos que realizam levantamentos para estudos de impacto ambiental da obra. No relato abaixo, Sue Branford descreve o inusitado encontro dela e sua pequena equipe com um coordenador de estudos biológicos e as tropas federais na rodovia Transamazônica. Rodrigo de Filippo agrediu verbalmente a jornalista inglesa e sua equipe, que também foi intimidada pela Força Nacional.

Sue Branford há mais de quarenta anos atua com coberturas jornalísticas sobre o Brasil. Foi correspondente no país do jornal The Guardian e da rede BBC. Esteve em Marabá, no início dos anos setenta, durante a construção da Transamazônica quando a região também estava militarizada, sendo em seguida chamada para depor no DOPS (Departamento de Ordem Política e Social, órgão de repressão do regime militar), pois sem conhecimento prévio da jornalista, no local se desenvolvia o combate de forças militares contra a Guerrilha do Araguaia, conflito até então desconhecido da grande maioria dos brasileiros. Foi responsável por uma das primeiras matérias sobre o assunto, publicada fora do país. Cobriu com entusiasmo o surgimento do novo sindicalismo do ABC Paulista e de Lula, as campanhas pela Anistia e Diretas, a Constituição de 1988 e a chegada do PT ao poder, entre outros fatos recentes da história brasileira.

No ano passado, quando esteve novamente na Amazônia, escreveu matérias sobre conflitos fundiários entre assentados e madeireiras nos municípios paraenses de Uruará e Anapu, publicados no Brasil na revista Caros Amigos e na Inglaterra no sítio da BBC.

Na atual viagem, na qual também escreve para BBC, antes de desembarcar em Santarém, produziu dois relatos  em seu blog a partir de sua estada no Rio de Janeiro. Os textos dizem sobre a nova geração de jovens que protagonizam os protestos no Brasil e sobre a Mídia Ninja.

Abaixo, a reprodução em português da primeira de uma série de postagens que Sue escreverá sobre a região. O texto original em inglês encontra-se no sítio da LAB. Essa versão em português foi gentilmente revisada por Sue para o blog Língua Ferina:

Como sempre acontece nessas viagens pela Amazônia, passamos os primeiros dias viajando. Desta vez foi de ônibus – dez horas de Santarém para Itaituba e outras oito de Itaituba para Jacareacanga, uma vila que se tornou famosa por ter sido o lugar onde militares lançaram uma tentativa de golpe contra o presidente Juscelino Kubitschek.
Não havia nada de especial na viagem até um encontro inesperado – e chocante– com Rodrigo de Filippo, o coordenador dos estudos biológicos que estão sendo realizados na região do rio Tapajós por uma grande empresa de engenharia, a Concremat. Esses estudos fazem parte do EIA/RIMA, uma avaliação de impactos sociais e ambientais exigida por lei antes de aprovar qualquer grande projeto. Neste caso, os estudos avaliam duas grandes – e polêmicas –hidrelétricas no rio Tapajós: São Luís do Tapajós e Jatobá.



Por lei, o governo deveria realizar previamente uma série de grandes consultas públicas com as comunidades locais. Essas consultas não ocorreram, talvez porque as autoridades já saibam que os índios Munduruku, que se somam cerca de 12.000 na região impactada, estão em sua grande maioria opostos às hidrelétricas.
Sem as consultas públicas, há tempos, os índios Munduruku exigem do governo a paralisação dos estudos biológicos. Como o governo ignorou por completo suas demandas, optaram em junho por ação direta: prenderam três biólogos que trabalhavam na região à revelia dos índios. Os reféns passavam à noite numa aldeia próxima e durante o dia ficavam “expostos” no coreto da única praça da cidade, ora eram fotografados com as mãos amarradas e os rostos pintados, em outras, eram convidados pelos próprios indígenas e os acompanhavam para assistir partidas de futebol no campo próximo.
O governo reagiu rapidamente: comprometeu-se a paralisar os estudos enquanto não fossem realizadas as consultas publicas, e os reféns foram soltos.
Mas era promessa para inglês ver: as consultas públicas não ocorreram e, pior, poucas semanas depois o governo emitiu licença para a retomada dos estudos. Logo em seguida, os biólogos voltaram à região, desta vez escoltados por contingentes armados de metralhadoras e fuzis, helicópteros e mais todo um verdadeiro aparato de guerra. Até agora os índios não reagiram, coibidos pelas metralhadoras. Segundo nos relatou um ribeirinho, as famílias não indígenas, mais próximos da operação e ainda mais assustados, sofreram uma pressão maior, e algumas delas chegaram a abandonar suas casas e se refugiar em Itaituba, a cidade mais “próxima”, numa viagem que pode levar até 12 horas.
Pode-se imaginar a minha surpresa quando desci do ônibus na parada para o almoço, numa comunidade no Km 180 da Transamazônica, no trecho Itaituba-Jacareacanga, longe das margens do Tapajós, onde são realizados os estudos, e vi um grupo de biólogos, cercados de soldados ostensivamente armados, sentados numa mesa ao lado. Como jornalista, queria saber como eles se sentiam trabalhando nessas condições.

Aproximei-me deles e me apresentei, gentilmente, mas, em seguida, um homem se levantou e se identificou como chefe dos trabalhos. Dirigindo-se a mim numa maneira bastante agressiva, disse que os pesquisadores estavam proibidos taxativamente de falar comigo. Respondi, outra vez com cortesia, “então, posso falar com o senhor?”. “Muito menos comigo! Muito menos comigo!” gritou ele em voz tão alta que deu para ser ouvido no restaurante todo. Imediatamente, os soldados ficaram em alerta.
E ele continuou, em tom elevado e ríspido: “Vocês desqualificaram meu trabalho. Vocês não tem nenhuma credibilidade!”, entre outros impropérios. Reagi, dizendo que ele não me conhecia – era a primeira vez que nos víamos – que eu era uma jornalista estrangeira fazendo matérias para a BBC de Londres, um órgão da imprensa mundialmente respeitado, que ele não tinha nenhum direito de me insultar dessa forma. Ele respondeu com mais insultos e me afastei. Um soldado levanta-se e posta-se intimidativo ao lado da minha colega Nayana Fernandes que tentava fotografar a cena.
Um incidente trivial, sem maiores consequências não fosse a preocupação que suscita. Se Rodrigo de Filippo age desta forma, em lugar público, com uma jornalista inglesa, imagine-se o tratamento que dispensa a ribeirinhos e indígenas longe de qualquer público na mata?

terça-feira, 10 de setembro de 2013

Hidrelétricas e mineração na Amazônia são temas de reportagens do LAB



As repórteres do LAB (Latin America Bureau) Sue Branford e Nayana Fernandez estão na Amazônia brasileira desde o último 05 de setembro. A missão é investigar durante 25 dias, o efeito sobre as comunidades locais de índios, pescadores e quilombos dos chamados projetos de desenvolvimento, especialmente em mineração e energia hidrelétrica, em torno dos rios Tapajós e Trombetas, no Pará. O trabalho incluirá entrevistas em vídeo com os líderes indígenas Munduruku, garimpeiros, quilombolas e outras pessoas dessas comunidades.

Após chegarem a Santarém, onde os rios Amazonas e Tapajós se encontram, elas percorreram mais de 800 quilômetros, chegando a Jacareacanga, uma cidade dominada por 'garimpeiros' na década de 1970 e 1980 e, agora, um centro de resistência indígena contra as hidrelétricas do Tapajós.

Sue Branford é inglesa e possui mais de 40 anos de trabalhos sobre a América Latina, o Brasil e a Amazônia. Foi correspondente da BBC e do jornal The Guardian. É atualmente editora-chefe do LAB.

Nayana Fernandez  é brasileira, videomaker, com mestrado em Antropologia e Política Cultural no Goldsmiths College, em Londres. Sua matérias se concentram em questões em torno dos direitos humanos e movimentos sociais no Brasil

Com informações do 
LAB.

Leia: Rio, um ano depois, por Sue Branford

terça-feira, 3 de setembro de 2013

Energia solar alemã sufoca a hidráulica suíça

Ray Smith/IPS | Lucerna (Suíça)
02/09/2013


Com redução do preço da eletricidade na Europa, companhias resistem a investir em infraestrutura


A energia hidráulica é a principal fonte de eletricidade nos países alpinos. Contudo, apesar de sua importância na mudança para alternativas renováveis na Europa, na Áustria e na Suíça estão suspensos alguns projetos de construção de infraestrutura hidrelétrica. Nos dias de bons ventos do verão alemão, quando milhões de painéis absorvem o Sol e as turbinas eólicas funcionam a toda velocidade, a rede elétrica não tem como absorver o excesso de energia. Nos domingos, em especial, a produção supera a demanda.

O resultado é a diminuição das tarifas. Inclusive aparecem números negativos, o que significa que os clientes recebem pela eletricidade. O mercado energético da Europa está liberalizado. O que acontece na Alemanha afeta seus vizinhos e as centrais hidrelétricas suíças não podem competir nessas condições. O auge da energia hidráulica suíça é histórica. Esta fonte, que cobre 55% da demanda, atravessa uma crise de rentabilidade porque as tarifas caíram 20% em relação ao ano anterior.

Nessas condições, as grandes produtoras de eletricidade da Suíça – Alpiq, Axpo, BKW e Repower – não estão dispostas a investir para otimizar e aumentar sua infraestrutura. Na verdade, a Repower anunciou uma redução de seus investimentos em 35% para os próximos dez a 15 anos. Andreas Meyer, responsável de comunicação da Alpiq, disse à IPS que os subsídios maciços para as energias renováveis desestabilizaram o mercado e puseram em dúvida a rentabilidade das centrais térmicas e hidrelétricas e também bloquearam os futuros investimentos. Atualmente, a Alpiq tem um programa de desinvestimento e teme que continue a deterioração das tarifas.



Continue lendo essa reportagem em Opera Mundi

terça-feira, 11 de junho de 2013

Indígenas contra hidrelétricas na Amazônia ocupam sede da Funai, em Brasília


Renato Santana de Brasília
Fotos: Ruy Sposati


Os 145 indígenas dos rios Xingu, Tapajós e Teles Pires, no Pará, ocuparam a sede da Fundação Nacional do Índio (Funai), em Brasília, na tarde desta segunda-feira, 10. Os indígenas aguardavam a presidente interina do órgão indigenista, Maria Augusta Assirati, para entregar documento com reivindicações, solicitar hospedagem e a data em que seriam levados de volta ao Pará. Porém, Maria Augusta não compareceu e por emissários avisou que estava em outra reunião. Nesta terça-feira, 11, completa uma semana que o grupo desocupou o principal canteiro de obras da UHE Belo Monte e veio ao Distrito Federal.
“Desde a manhã estamos esperando alguém da Funai para falar da nossa pauta, da hospedagem. Ninguém apareceu até agora. Nós chamamos vocês para nossa assembleia, que começou quando chegamos, e vocês não vieram. Então estamos informando agora para vocês que nos estamos acampando aqui na Funai. Vamos ocupar a Funai a partir de agora”, disse Josias Munduruku aos representantes delegados pela interina da Funai.
O grupo já demonstrava indignação com a postura do ministro-chefe da Secretaria Geral da Presidência da República (SGPR), Gilberto Carvalho, que na manhã desta segunda negou reunião com os indígenas. Ao invés do ministro, quem recebeu os indígenas foram soldados do Exército e assessores. Pelo próprio governo, os indígenas foram encaminhados para a Funai, onde seriam recebidos pela presidente interina. Até o final da tarde de hoje, Maria Augusta não apareceu.
“Disseram (na SGPR) que receberiam uma comissão de dez, mas nós não nos separamos. O governo não quer entender isso, respeitar nosso jeito. Sabem que não nos separamos. Por essa postura, o ministro descumpre os acordos e assim fica difícil conversar”, explica Jairo Saw, assessor do cacique-geral Munduruku. Para as lideranças, os assessores de Carvalho disseram que ele só poderia atendê-los até as 11h15. Em nota, a SGPR disse que as lideranças indígenas se negaram a se reunir com Gilberto Carvalho.
“O governo está dando as costas para nós. Não quer nos ouvir. Nós estamos entendendo isso. Ele disse que vai fazer hidrelétricas de qualquer jeito, e ele sabe que nós não queremos. Essa nota do governo nós lemos na reunião. Ele disse que esperou a gente, disse que nos recusamos. É mentira! Foi ao contrário. Nós fomos lá, nós que esperamos”, disse Josias Munduruku para os emissários de Maria Augusta.
O povo Munduruku interpelou judicialmente, no início deste mês, o ministro Carvalho por outra nota da SGPR, onde acusa “autodenominadas” lideranças de envolvimento com atividades ilícitas. Leia matéria na íntegra aqui.
Carta protocolada; carta não recebida
Os indígenas, mesmo sem serem recebidos, protocolaram na SGPR o documento que entregariam ao ministro em mãos – leia a íntegra aqui. Na carta, os indígenas relatam ponto a ponto as áreas afetadas pelo projeto hidrelétrico nos rios Teles Pires e Tapajós – motivo pelo qual o grupo ocupou no mês de maio, por 17 dias em duas ocasiões, o principal canteiro das obras da UHE Belo Monte. Um dos locais atingidos é a Cachoeira Sete Quedas, sagrado para os Munduruku, Kayabi e Apiaká, que será inundada pela usina que está sendo construída no Teles Pires.
“A Cachoeira de Sete quedas (Paribixexe): É uma linda cachoeira contendo sete quedas em formato de escada. É o lugar onde os mortos estão vivendo, o céu dos mortos, ou seja, o mundo dos vivos, o reino dos mortos. É um local sagrado para os Munduruku, Kayabi e Apiakás, aonde também os peixes se procriam e diversas espécies e todos os tamanhos, onde existe a mãe dos peixes. Nas paredes constam as pinturas rupestres deixados pelo Muraycoko (pai da escrita), a escrita deixada para os Munduruku através das escritas surabudodot, por muito tempo remoto (sic)”, diz trecho da carta.
Para Valdenir Munduruku, o ministro Carvalho demonstra com as atitudes apresentadas a forma de diálogo que pretende manter: “Aqui, a casa deles, nos recebem com o Exército e a polícia e não nos deixam entrar. Em nossa casa, mandam o Exército e a polícia para poderem entrar. Isso não é diálogo. É como se nós fôssemos inimigos”. Josias Munduruku lembra que na reunião da última terça-feira, 4, o ministro disse que as hidrelétricas vão sair, pois se trata de uma decisão de governo: “Me pergunto: que consulta é essa que eles querem fazer? Não é consulta quando eles (governo) tomam uma decisão sem volta. O que poderá sair de consulta assim?”, questiona.
Por enquanto, não há previsão de retorno dos indígenas para o Pará e de desocupação do órgão indigenista estatal. Tampouco a hospedagem ficou definida, mas, pelo visto, depois do anúncio da ocupação à sede da Funai, os indígenas já arrumaram um lugar para ficar - ao menos por essa noite.

terça-feira, 28 de maio de 2013

A energia suja, cara e opressora das hidrelétricas

Paulo Barreto
27 de Maio de 2013

Lago e vertedouro da hidrelétrica de Itaipu. Foto: International Hydropower Association/Arquivo

Em 2008, entrevistei produtores rurais sobre a situação fundiária em Novo Progresso, no oeste do Pará. Um produtor que estava lá desde o fim da década de 1970, reassentado para a construção da hidrelétrica de Itaipu, no Paraná, me disse, frustrado, que ainda não tinha o título de sua terra. Contou-me do sofrimento dos imigrantes com a falta de infraestrutura no Pará e com doenças como a malária. Sentia-se traído pelo governo. Pensei: Uau! os efeitos negativos de Itaipu persistem após mais de 30 anos e a 2.400 quilômetros de distância. Aquele produtor já está fora do radar das preocupações sobre geração de energia no país. Mas a geração de energia continua em debate e precisa melhorar.

Recentemente, visitei a hidrelétrica de Itaipu como parte de um evento sobre energia e meio ambiente. No evento, especialistas repetiram a afirmação frequente de que nossa energia é limpa. Segundo o governo federal, 44 % provêm de energias renováveis, especialmente hidrelétricas; enquanto que a média mundial de renováveis é de apenas 13,3%.

Os especialistas também argumentam que a geração hidrelétrica é barata comparada com outras fontes. Então poderíamos ficar tranquilos: nossa energia é limpa e barata. Uma consequência desta crença é o desperdício de energia.

No hotel do evento, em Foz do Iguaçu, constatei esse desperdício em pelo menos duas situações. Apesar de a temperatura ambiente estar amena, condicionadores de ar resfriavam os corredores, iluminados por lustres com quatro lâmpadas incandescentes de alto consumo. Ao mesmo tempo, em alguns momentos, a lareira era acesa para aquecer o salão de entrada do hotel.

Na rabeira da eficiência energética

Infelizmente o desperdício e ineficiência são generalizados no país. Em consequência disso, em 2012 o Brasil ficou em décimo lugar no desempenho de eficiência energética entre as 12 maiores economias do mundo, segundo o Conselho Americano para uma Economia de Energia Eficiente (Aceee). Dentre os 25 indicadores avaliados, o Brasil ficou em último lugar no item esforços nacionais, que considera iniciativas que estimulam o uso consciente da energia.

Especialistas brasileiros também reconhecem o desinteresse em eficiência energética. Durante a Rio+20, em julho de 2012, a subsecretária de Economia Verde do Rio de Janeiro afirmou que faltam defensores deste setor. As empresas geradoras fazem lobby para gerar mais energia, não para poupar. Segundo ela, o governo deveria liderar as políticas de eficiência.

Sem planos robustos para poupar energia, o Brasil continua projetando a demanda de energia com base na ineficiência do passado e do presente. Assim, a demanda projetada para o futuro é maior do que seria em um cenário com crescimento de eficiência.

Para suprir a energia futura, o governo e vários especialistas continuam defendendo que o Brasil deverá privilegiar a construção de novas hidrelétricas, e o governo projeta nove na Amazônia entre 2017 e 2021. Novamente o argumento é de que essa fonte é limpa e barata.

Porém, os custos socioambientais têm sido negligenciados. Pior ainda, governos e empresas não têm feito tudo que poderiam para mitigar os impactos negativos das hidrelétricas.

Sem consulta aos indígenas

A hidrelétrica de Belo Monte, em Altamira, que atualmente ocupa as manchetes, diminuirá o fluxo do Rio Xingu no limite das Terras Indígenas Paquiçamba e Arara da Volta Grande do Xingu, o que afetará a navegação e pesca praticadas por esses povos.

A situação tende a piorar se mantidas as formas do governo de atuar. Segundo o Instituto Acende Brasil, 82% do potencial de geração do Plano Decenal de Energia do governo para 2017-2021 afetará seis Terras Indígenas na Amazônia. Segundo a Constituição, os indígenas deveriam ser consultados sobre a construção das hidrelétricas. Porém, a forma de fazer a consulta sequer foi regulamentada.

Mesmo com a regulamentação, o potencial de conflitos é significante. No evento em Itaipu, o representante do Acende Brasil disse que mesmo com as consultas, o governo tem a última palavra. O instituto sugere que os índios sejam compensados com parte dos royalties. Mas o que ocorreria se eles dissessem não? Se o governo desconsiderasse o não dos índios, imaginem a quantidade de protestos durante a construção e os meios de comunicação transmitindo imagens dos índios oprimidos no dia do alagamento de suas áreas.

Incentivo ao desmatamento


As hidrelétricas na Amazônia também ajudam a aumentar o desmatamento, pois as obras atraem imigrantes que estimulam a economia local. Estimamos que este desmatamento indireto atingiria 5.100 km² em 20 anos na região de Belo Monte. Isso equivaleria a 10 vezes o tamanho da área que será alagada. No caso das hidrelétricas do Tapajós, a área desmatada indiretamente chegaria a cerca de 11.000 km². Assim, cerca de 815 milhões de árvores seriam derrubadas em torno destes dois projetos devido o desmatamento indireto.

No caso de Belo Monte, o governo ainda não criou as Unidades de Conservação (UC) sugeridas para reduzir o risco de desmatamento. Pior ainda, o governo federal reduziu 1.500 km² de 7 UCs para facilitar o licenciamento das hidrelétricas do Tapajós. E até agora não criou as UCs que prometeu para compensar a redução destas.

Em resumo, nossa energia não é barata e nem limpa e pode ser muito opressora. Se tomarmos consciência disso e cobrarmos, talvez nossos iluminados políticos instituam políticas fortes de eficiência energética e se comprometam, de fato, com as medidas para redução dos impactos da geração de energia.