sexta-feira, 6 de julho de 2012

Revista com 'melhores jovens escritores' pretende revelar literatura brasileira no exterior

BBC Brasil

'A maneira como podemos realmente entender como é viver no Brasil é lendo seus escritores', diz editor da britânica Granta.

Uma edição especial com 20 jovens autores brasileiros pode ajudar a promover a nova geração de escritores brasileiros no exterior - e lançar luzes sobre a cultura e a vida no Brasil, considera John Freeman, editor da revista literária britânica Granta.
Em entrevista à BBC Brasil, Freeman considera 'triste' se falar apenas de crescimento econômico e eventos esportivos no Brasil no exterior sem que haja uma percepção maior sobre a literatura do país.
Durante a Festa Literária de Paraty (Flip), a Granta lançou uma edição especial dedicada apenas a autores brasileiros, com contos e trechos de romances inéditos selecionados em um concurso que contou com 247 trabalhos inscritos, todos por autores de menos de 40 anos.
Prestigiosa revista literária inglesa, a Granta publicou em 1983 sua primeira lista dos melhores jovens escritores britânicos, inaugurando uma tradição que se repete a cada dez anos e é cercada de expectativas por antecipar nomes importantes na cena literária de língua inglesa.
Agora, é a primeira vez que o modelo chega ao Brasil. 'Os melhores jovens escritores brasileiros' foi publicada em português, mas será lançada em inglês, chinês e espanhol, fazendo os autores selecionados circularem entre um público amplo.
Os escritores que tiveram seus trabalhos publicados são Cristhiano Aguiar; Javier Arancibia Contreras; Vanessa Barbara; Carol Bensimon; Miguel Del Castillo; João Paulo Cuenca; Laura Erber; Emilio Fraia; Julián Fuks; Daniel Galera; Luisa Geisler; Vinicius Jatobá; Michel Laub; Ricardo Lísias; Chico Mattoso; Antonio Prata; Carola Saavedra; Tatiana Salem Levy; Leandro Sarmatz; e Antônio Xerxenesky.


Leia abaixo os principais trechos da entrevista.
BBC Brasil - É a primeira vez que uma lista dessas é feita para o Brasil. O que isso representa para a literatura brasileira?
John Freeman - A lista tem muitos significados, mas o principal é apresentar uma geração de escritores. Aqui está uma geração que, esperamos, todos no Brasil e agora no mundo vão ler nos próximos anos. É uma chance de debater essa lista, analisar esse trabalho.
O interessante em formular listas de jovens autores é que eles olham para o mundo de uma maneira diferente de escritores mais velhos. Eles estão se definindo, encontrando a sua voz, muitos deles escrevem seus trabalhos mais ambiciosos antes dos 40. É uma chance de ver o que isso revela sobre o Brasil.


BBC Brasil - E o que você acha que o conjunto de autores selecionados revela sobre o Brasil?
John Freeman - Essa é uma geração que cresceu em grande parte fora da ditadura militar, em tempos deoportunidades crescentes e de desenvolvimento econômico, de movimento para a cidade e tendência ao cosmopolitanismo. Esses são autores que viveram ao redor do mundo e que estão absorvendo influências não apenas da América Latina ou do Brasil, mas de escritores do mundo todo.
Eu encontrei um enorme frescor na escrita, uma inquietude com a forma, um foco na família como um ponto central que orienta a vida, algo que em algum grau pode ser semelhante a autores do passado.


BBC Brasil - Durante a coletiva de imprensa, você mencionou que vários autores que estão aqui na Flip neste ano fizeram parte de listas de jovens autores da Granta no passado, como Ian McEwan, Jonathan Franzen e Alejandro Zambra. O que isso pode trazer para os autores?
John Freeman - Isso significa que as pessoas estão de olho neles agora, que vão observar o que acontece no futuro. Isso tem um significado enorme para vendas no exterior e possibilidade de ser traduzido. Vejo isso pela lista de jovens autores que fizemos na nossa edição espanhola. Muitos deles foram traduzidos para outras línguas depois, não apenas inglês.
A outra vantagem é que a lista os coloca em diálogo com outros jovens autores, e isso vira uma espécie de confraria.


BBC Brasil - Como você acha que a literatura brasileira é percebida no exterior hoje?
John Freeman - Na verdade ela não tem uma percepção. Muitas pessoas se apaixonaram pelo Jorge Amado, leem Machado de Assis, a Clarice Lispector está sendo retraduzida no momento... Mas não há uma percepção da literatura brasileira como há da argentina, ou colombiana, ou peruana.
Acho que em grande parte isso acontece porque nenhum brasileiro ganhou o prêmio Nobel. Quando alguém ganha o Nobel, ele se torna um portal gigante para a sua cultura, e às vezes outros autores podem viajar na sua cola.


BBC Brasil - Hoje o Brasil recebe muita atenção do exterior, mas esse discurso é puxado pelo crescimento econômico e dos megaeventos que o país vai sediar?
John Freeman - É, futebol. Eu acho triste quando isso acontece porque despe o país de seu imaginário, das histórias que ele conta sobre si, sobre as pessoas que vivem nele. Imagina se tivéssemos produtos americanos, mas nenhuma ficção americana. Seria muito desmoralizante, teríamos que pensar nos Estados Unidos com base em seus carros, sei lá.
O mesmo vale para a China. O país está crescendo muito rápido, está em uma posição semelhante ao Brasil, mas se não há escritores ou músicos ou cineastas contando a história do país como ele é, você começa a tratar os países como motores do capitalismo. E o capitalismo é algo maravilhoso, mas também algo destrutivo.


BBC Brasil - Então neste contexto onde o crescimento econômico é tão valorizado, a ficção e a literatura podem ser uma chave para vislumbrar as vidas das pessoas?
John Freeman - Sim, eu acho que é a maneira mais poderosa de imaginar como é ser outra pessoa. Podemos vestir roupas fabricadas no Brasil, ou podemos tentar seguir os seus passos de dança - o que, vindo de um americano, é uma má ideia. Mas a maneira como podemos realmente tentar entender como é viver aqui é lendo seus escritores.
O jornalismo só pode nos levar até determinado ponto, porque é sobre outra pessoa, é distanciado. Jornalistas têm muitas ferramentas, mas não têm as ferramentas que escritores de ficção têm, que é de inventar e torcer o tecido da realidade e transformá-la em algo novo, o que às vezes pode contar a verdade de uma maneira mais fiel do que as coisas factuais.

quarta-feira, 4 de julho de 2012

Entenda a importância do tempo “ocioso” para o seu cérebro


Ana Carolina Prado
Superinteressante



Você, caro leitor, tem problemas para se concentrar e sente que é cada vez mais difícil dar conta de todas as tarefas do dia a dia? Experimente cultivar um novo hábito: o de deixar o smartphone de lado, desligar a TV e o computador e deixar seu cérebro descansar e ter devaneios (ou sonhar acordado) à vontade.
A pesquisadora e professora de educação, psicologia e neurociência na Universidade do Sul da Califórnia, Mary Helen Immordino-Yang, escreveu um artigo com outros colegas que trazia um levantamento da literatura científica existente da neurociência e da ciência psicológica explorando o que significa quando o nosso cérebro está ‘em repouso’.
O trabalho foi publicado na edição de julho do periódico “Perspectives on Psychological Science” e aponta que, quando estamos descansando e focados em nosso mundo interior, nosso cérebro entra no chamado “modo padrão” ou “default”. A atividade desse modo default está ligada aos componentes do nosso funcionamento socioemocional, como autoconhecimento, julgamentos morais, desenvolvimento do raciocínio e construção de sentido do mundo que nos rodeia. Falando nisso, outra pesquisa recente, feita na Universidade da Califórnia em Santa Barbara, concluiu que ter devaneios realmente melhora a produtividade e ajuda na resolução de problemas.
Immordino-Yang e seus colegas expressaram preocupação com o fato de que os ambientes urbanos e virtuais (redes sociais cabem muito bem aí) têm exigido demais de nossa atenção. Para eles, isso talvez esteja minando oportunidades de reflexão e pode ter efeitos negativos sobre o nosso desenvolvimento psicológico.
A importância do tempo “ocioso” para o aprendizado e memória
Para Immordino-Yang, a reflexão e o silêncio podem ser muito importantes também para o aprendizado e memória. “O foco para dentro afeta a maneira como construímos memórias e sentidos e o modo como transferimos o que aprendemos para novos contextos”, explica. Ela defende que as escolas incentivem o aluno a se voltar para si mesmo, o que pode ajudar na consolidação do aprendizado em longo prazo. “O equilíbrio é necessário entre a atenção exterior e interior, já que o tempo gasto com a mente vagando, refletindo e imaginando também pode melhorar a qualidade da atenção externa que as crianças podem sustentar”, completa.
Segundo os autores, talvez a conclusão mais importante a ser extraída de pesquisas sobre o cérebro em repouso é o fato de que isso não significa uma ociosidade negativa – pelo contrário, é fundamental para aprendermos com as experiências. Estudos já indicaram que, quando as crianças têm tempo e habilidades necessários para a reflexão, muitas vezes se tornam mais motivadas, menos ansiosas, têm melhor desempenho em testes e passam a planejar o futuro de forma mais eficaz.

segunda-feira, 2 de julho de 2012

Monsanto, Cargill e o golpe no Paraguai


Confira abaixo as reportagens publicadas na Carta Maior e na Rede Brasil Atual reconstituindo o passo a passo do golpe e as ações de bastidores das corpotações do agronegócio e ruralistas.


REDE BRASIL ATUAL, 26/06/2012
Por Leonardo Wexell Severo

Uma grotesca farsa caiu como raio em céu claro sobre o presidente constitucional do Paraguai, Fernando Lugo. Em questão de horas o mandatário teve o seu impeachment proposto, analisado e votado pelo Congresso, mediante um processo metodicamente orquestrado pelas multinacionais Monsanto e Cargill, a oligarquia latifundiária, as elites empresariais e sua mídia.
As comemorações estampadas nos principais jornais paraguaios dão a dimensão do ódio de classe, com as desclassificadas mentiras destiladas contra quem se dispôs – ainda que com vacilos e limitações – a virar a página de abusos e subserviência aos ditames de Washington e suas empresas.
O cerco midiático contra Lugo vinha se fechando, num país em que 85% das terras encontram-se nas mãos de 2% da população e onde os mesmos donos dos três principais jornais, umbilicalmente vinculados às transnacionais e ao sistema financeiro, também controlam as emissoras de rádio e televisão.
Assim, de forma suja e monocórdica, foram convocadas manifestações, com bloqueio de estradas.
Grandes “tratoraços” em protesto contra a decisão do governo em favor da saúde da população e da soberania alimentar – de não liberar a semente de algodão transgênico Bollgard BT, da Monsanto, cuja sequência genética está mesclada ao gene do Bacillus Thurigensis, bactéria tóxica que mata algumas pragas de algodão.
A decisão, que afetava milionários interesses da multinacional estadunidense, havia sido comunicada pelo Serviço Nacional de Qualidade e Saúde Vegetal e de Sementes (Senave), uma vez que a liberação não tinha o parecer do Ministério da Saúde e da Secretaria do Meio Ambiente.
“A Monsanto, através da UGP, estreitamente ligada ao Grupo Zuccolillo, que publica o diário ABC Color, se lançou contra a Senave e seu presidente Miguel Lovera por não ter inscrito a sua semente transgênica para uso comercial no país”, denuncia o jornalista e pesquisador paraguaio Idilio Méndez Grimaldi.
Para tirar o Senave do caminho foi alegado o surrado argumento da “corrupção” no órgão, o mesmo estratagema da máfia de Carlinhos Cachoeira para tomar de assalto o DNIT e alavancar negociatas, via utilização de seus vínculos com a revista Veja para denunciar desvios no órgão – conseguindo inclusive a queda do ministro dos Transportes. Dessa forma, “denúncias” por parte de uma pseudo-sindicalista do Senave, Silvia Martínez, ganharam manchetes na mídia canalha. O jornal ABC Color do dia 7 de junho último acusou o chefe do Senave, Miguel Lovera, de “corrupção e nepotismo na instituição que dirige”. Mas o fato é que a pretensa sindicalista advogava em causa própria, do marido e de seus patrocinadores. Conforme revelou Grimaldi, “Silvia Martínez é esposa de Roberto Cáceres, representante técnico de várias empresas agrícolas – todas sócias da UGP (Unión de Grêmios de la Producción) – entre elas Agrosán, recentemente adquirida pela Syngenta, outra transnacional, por 120 milhões de dólares”.
Algo similar à UDR (União Democrática Ruralista) de Ronaldo Caiado, e aos ruralistas da senadora Kátia Abreu, a UGP é comandada por Héctor Cristaldo, sustentado por figuras como Ramón Sánchez – vinculado ao setor agroquímico – entre outros agentes das transnacionais do agronegócio. “Cristaldo integra o staff de várias empresas do Grupo Zuccolillo, cujo principal acionista é Aldo Zuccolillo, diretor proprietário do jornal ABC Color desde sua fundação sob o regime de Stroessner, em 1967. Zuccolillo é dirigente da Sociedade Interamericana de Prensa (SIP)”, esclarece Idílio Grimaldi. O jornalista lembra que o Grupo Zuccolillo é o principal sócio no Paraguai da Cargill, uma das maiores transnacionais do agronegócio do mundo. “Tal sociedade” construiu um dos portos graneleiros mais importantes do Paraguai, o Porto União, a 500 metros da absorção de água da Companhia de Saneamento do Estado, sobre o rio Paraguai, sem qualquer restrição”, esclarece. (…)


A serviço da Monsanto
Conforme o jornalista, no marco da apresentação preparada pelo Ministério da Agricultura – a serviço dos EUA -, a transnacional Monsanto anunciou outra variedade de algodão, duplamente transgênico: BT e RR ou Resistente ao Roundup, herbicida fabricado e patenteado pela multinacional, que quer a liberação da semente no país.
Para afastar incômodos obstáculos, antes disso o diário ABC Color vinha denunciando “presumíveis” fatos de corrupção dos ministros do Meio Ambiente e da Saúde, Oscar Rivas e Esperança Martínez, que também haviam negado posição favorável à Monsanto. A multinacional faturou no ano passado, somente com os royalties pelo uso de sementes transgênicas de soja no Paraguai, 30 milhões de dólares, livre de impostos, (porque não declara esta parte de sua renda). “Independente disso, a multinacional também fatura pela venda das sementes transgênicas. Toda a soja cultivada é transgênica numa extensão próxima aos três milhões de hectares, numa produção em torno de sete milhões de toneladas em 2010”, revela Grimaldi.
Por outro lado, acrescenta o jornalista, a Câmara de Deputados já aprovou projeto de Lei de Biosseguridade, que contempla criar uma direção de Biosegurança com amplos poderes para a aprovação do cultivo comercial de todas as sementes transgênicas, sejam elas de soja, milho, arroz, algodão… Este projeto de lei elimina a atual Comissão de Biosseguridade, ente colegiado de funcionários técnicos do Estado paraguaio, visto como entrave aos desígnios da Monsanto.
“Enquanto transcorriam todos esses acontecimentos, a UGP vinha preparando um ato de protesto nacional contra o governo de Fernando Lugo para o dia 25 de junho, com máquinas agrícolas fechando parte das estradas em diferentes pontos do país. Uma das reivindicações do denominado ‘tratoraço’: a destituição de Miguel Lovera do Senave, assim como a liberação de todas as sementes transgênicas para cultivo comercial”.
Dado o golpe, como estamparam os grandes conglomerados de mídia no Paraguai neste sábado, “a manifestação da UGP foi suspensa”. Afinal, “há um novo governo, mais sensível ao mercado”.



Monsanto e os acontecimentos no Paraguai: Os mortos de Curuguaty e o julgamento político de Lugo.

IHU Unisinos, 25/06/0212

Foram muitos os sinais que antecederam o golpe contra o presidente Fernando Lugo: a maneira como ocorreu o conflito em Curuguaty que deixou 17 mortos, a presença de franco-atiradores entre os camponeses, a campanha via jornal ABC Color contra os funcionários do governo que se opunham à liberação das sementes de algodão transgênico da Monsanto, a convocação de um tratoraço nacional com bloqueio de estradas para o dia 25. O jornalista paraguaio Idilio Méndez Grimaldi conta essa história e adverte: “os mortos de Curugaty carregam uma mensagem para a região, especialmente para o Brasil”. O artigo foi reproduzido pela Carta Maior, 23/06/2012.


Tradução: Marco Aurélio Weissheimer.
O artigo de Idilio Méndez Grimaldi, reproduzido abaixo, foi escrito dias antes da aprovação, no Senado paraguaio, da abertura do processo de impeachment de Fernando Lugo.

Quem está por trás desta trama tão sinistra? Os impulsionadores de uma ideologia que promove o lucro máximo a qualquer preço e quanto mais, melhor, agora e no futuro. No dia 15 de junho de 2012, um grupo de policiais que ia cumprir uma ordem de despejo no departamento de Canindeyú, na fronteira com o Brasil, foi emboscado por franco-atiradores, misturados com camponeses que pediam terras para sobreviver. A ordem de despejo foi dada por um juiz e uma promotora para proteger um latifundiário. Resultado da ação: 17 mortos, 6 policiais e 11 camponeses, além de dezenas de feridos graves. As consequências: o governo frouxo e tímido de Fernando Lugo caiu com debilidade ascendente e extrema, cada vez mais à direita, a ponto de ser levado a julgamento político por um Congresso dominado pela direita.
Trata-se de um duro revés para a esquerda e para as organizações sociais e campesinas, acusadas pela oligarquia latifundiária de instigar os camponeses. Representa ainda um avanço do agronegócio extrativista nas mãos de multinacionais como a Monsanto, mediante a perseguição dos camponeses e a tomada de suas terras. Finalmente, implica a instalação de um cômodo palco para as oligarquias e os partidos de direita para seu retorno triunfal nas eleições de 2013 ao poder Executivo.
No dia 21 de outubro de 2011, o Ministério da Agricultura e Pecuária, dirigido pelo liberal Enzo Cardozo, liberou ilegalmente a semente de algodão transgênico Bollgard BT, da companhia norteamericana de biotecnologia Monsanto, para seu plantio comercial no Paraguai. Os protestos de organizações camponesas e ambientalistas foram imediatos. O gene deste algodão está misturado com o gene do Bacillus thurigensis, uma bactéria tóxica que mata algumas pragas do algodão, como as larvas do bicudo, um coleóptero que deposita seus ovos no botão da flor do algodão.
O Serviço Nacional de Qualidade e Saúde Vegetal e de Sementes (Senave), instituição do Estado paraguaio dirigida por Miguel Lovera, não inscreveu essa semente nos registros de cultivares pela falta de parecer do Ministério da Saúde e da Secretaria do Ambiente, como exige a legislação.

Campanha midiática
Nos meses posteriores, a Monsanto, por meio da União de Grêmios de Produção (UGP), estreitamente ligada ao grupo Zuccolillo, que publica o jornal ABC Color, lançou uma campanha contra o Senave e seu presidente por não liberar o uso comercial em todo o país da semente de algodão transgênico da Monsanto. A contagem regressiva decisiva parece ter iniciado com uma nova denúncia por parte de uma pseudosindicalista do Senave, chamada Silvia Martínez, que, no dia 7 de junho, acusou Lovera de corrupção e nepotismo na instituição que dirige, nas páginas do ABC Color. Martínez é esposa de Roberto Cáceres, representante técnico de várias empresas agrícolas, entre elas a Agrosan, recentemente adquirida por 120 milhões de dólares pela Syngenta, outra transnacional, todas sócias da UGP.
No dia seguinte, 8 de junho, a UGP publicou no ABC uma nota em seis colunas: “Os 12 argumentos para destituir Lovera”. Estes supostos argumentos foram apresentados ao vice-presidente da República, correligionário do ministro da Agricultura, o liberal Federico Franco, que naquele momento era o presidente interino do Paraguai, em função de uma viagem de Lugo pela Ásia.
No dia 15, por ocasião de uma exposição anual organizada pelo Ministério da Agricultura e Pecuária, o ministro Enzo Cardoso deixou escapar um comentário diante da imprensa que um suposto grupo de investidores da Índia, do setor de agroquímicos, cancelou um projeto de investimento no Paraguai por causa da suposta corrupção no Senave. Ele nunca esclareceu que grupo era esse. Aproximadamente na mesma hora daquele dia, ocorriam os trágicos eventos de Curuguaty.
No marco desta exposição preparada pelo citado Ministério, a Monsanto apresentou outra variedade de algodão, duplamente transgênica: BT e RR, ou Resistente ao Roundup, um herbicida fabricado e patenteado pela transnacional. A pretensão da Monsanto é a liberação desta semente transgênica no Paraguai, tal como ocorreu na Argentina e em outros países do mundo.
Antes desses fatos, o diário ABC Color denunciou sistematicamente, por supostos atos de corrupção, a ministra da Saúde, Esperanza Martínez, e o ministro do Ambiente, Oscar Rivas, dois funcionários do governo que não deram parecer favorável a Monsanto.
Em 2001, a Monsanto faturou 30 milhões de dólares, livre de impostos (porque não declara essa parte de sua renda), somente na cobrança de royalties pelo uso de sementes de soja transgênica no Paraguai. Toda a soja cultivada no país é transgênica, numa extensão de aproximadamente 3 milhões de hectares, com uma produção em torno de 7 milhões de toneladas em 2010.
Por outro lado, na Câmara de Deputados já se aprovou o projeto de Lei de Biossegurança, que cria um departamento de biossegurança dentro do Ministério da Agricultura, com amplos poderes para a aprovação para cultivo comercial de todas as sementes transgênicas, sejam de soja, de milho, de arroz, algodão e mesmo algumas hortaliças. O projeto prevê ainda a eliminação da Comissão de Biossegurança atual, que é um ente colegiado forma por funcionários técnicos do Estado paraguaio.
Enquanto transcorriam todos esses acontecimentos, a UGP preparava um ato de protesto nacional contra o governo de Fernando Lugo para o dia 25 de junho. Seria uma manifestação com máquinas agrícolas fechando estradas em distintos pontos do país. Uma das reivindicações do chamado “tratoraço” era a destituição de Miguel Lovera do Senave, assim como a liberalização de todas as sementes transgênicas para cultivo comercial.

As conexões
A UGP é dirigida por Héctor Cristaldo, apoiado por outros apóstolos como Ramón Sánchez – que tem negócios com o setor dos agroquímicos -, entre outros agentes das transnacionais do agronegócio. Cristaldo integra o staff de várias empresas do Grupo Zuccolillo, cujo principal acionista é Aldo Zuccolillo, diretor proprietário do diário ABC Color, desde sua função sob o regime de Stroessner, em 1967. Zuccolillo é dirigente da Sociedade Interamericana de Imprensa (SIP).
O grupo Zuccolillo é sócio principal no Paraguai da Cargill, uma das maiores transnacionais do agronegócio no mundo. A sociedade entre os dois grupos construiu um dos portos graneleiros mais importantes do Paraguai, denominado Porto União, a 500 metros da área de captação de água da empresa de abastecimento do Estado paraguaio, no Rio Paraguai, sem nenhuma restrição.
As transnacionais do agronegócio no Paraguai praticamente não pagam impostos, mediante a férrea proteção que tem no Congresso, dominado pela direita. A carga tributária no Paraguai é apenas de 13% sobre o PIB. Cerca de 60% do imposto arrecadado pelo Estado paraguaio é via Imposto sobre Valor Agregado (IVA). Os latifundiários não pagam impostos. O imposto imobiliário representa apenas 0,04% da carga tributária, cerca de 5 milhões de dólares, segundo estudo do Banco Mundial, embora a renda do agronegócio seja de aproximadamente 30% do PIB, o que representa cerca de 6 bilhões de dólares anuais.
O Paraguai é um dos países mais desiguais do mundo. Cerca de 85% das terras, aproximadamente 30 milhões de hectares, estão nas mãos de 2% de proprietários, que se dedicam à produção meramente para exportação ou, no pior dos casos, à especulação sobre a terra. A maioria desses oligarcas possui mansões em Punta del Este ou em Miami e mantém estreitas relações com transnacionais do setor financeiro, que guardam seus bens mal havidos nos paraísos fiscais ou tem investimentos facilitados no exterior. Todos eles, de uma ou outra maneira, estão ligados ao agronegócio e dominam o espectro político nacional, com amplas influências nos três poderes do Estado. Ali reina a UGP, apoiada pelas transnacionais do setor financeiro e do agronegócio.

Os fatos de Curugaty
Curuguaty é uma cidade na região oriental do Paraguai, a cerca de 200 quilômetros de Assunção, capital do país. A alguns quilômetros de Curuguaty encontra-se a fazenda Morombi, de propriedade do latifundiário Blas Riquelme, com mais de 70 mil hectares nesse lugar. Riquelme provém das entranhas da ditadura de Stroessner (1954-1989), sob cujo regime acumulou uma intensa fortuna. Depois, aliou-se ao general Andrés Rodríguez, que executou o golpe de Estado que derrubou o ditador Stroessner. Riquelme, que foi presidente do Partido Colorado por muitos anos e senador da República, dono de vários supermercados e estabelecimentos pecuários, apropriou-se mediante subterfúgios legais de aproximadamente 2 mil hectares que pertencem ao Estado paraguaio.
Esta parcela foi ocupada pelos camponeses sem terra que vinham solicitando ao governo de Fernando Lugo sua distribuição. Um juiz e uma promotora ordenaram o despejo dos camponeses, por meio do Grupo Especial de Operações (GEO), da Polícia Nacional, cujos membros de elite, em sua maioria, foram treinados na Colômbia, sob o governo de Uribe, para a luta contra as guerrilhas.
Só uma sabotagem interna dentro dos quadros de inteligência da polícia, com a cumplicidade da promotoria, explica a emboscada, na qual morreram seis policiais. Não se compreende como policiais altamente treinados, no marco do Plano Colômbia, puderam cair facilmente em uma suposta armadilha montada pelos camponeses, como quer fazer crer a imprensa dominada pela oligarquia. Seus camaradas reagiram e dispararam contra os camponeses, matando 11 e deixando uns 50 feridos. Entre os policiais mortos estava o chefe do GEO, comissário Erven Lovera, irmão do tenente coronel Alcides Lovera, chefe de segurança do presidente Lugo.
O plano consiste em criminalizar, levar até ao ódio extremo todas as organizações campesinas, para fazer os camponeses abandonarem o campo, deixando-o para uso exclusivo do agronegócio. É um processo doloroso, “descampesinização” do campo paraguaio, que atenta diretamente contra a soberania alimentar, a cultura alimentar do povo paraguaio, por serem os camponeses produtores e recriadores ancestrais de toda a cultura guarani.
Tanto o Ministério Público, como o Poder Judiciário e a Polícia Nacional, assim como diversos organismos do Estado paraguaio estão controlados mediante convênios de cooperação com a USAID, agência de cooperação dos Estados Unidos.
O assassinato do irmão do chefe de segurança do presidente da República obviamente foi uma mensagem direta a Fernando Lugo, cuja cabeça seria o próximo objetivo, provavelmente por meio de um julgamento político, mesmo que ele tenha levado seu governo mais para a direita, tratando de acalmar as oligarquias. O ocorrido em Curuguaty derrubou Carlos Filizzola do Ministério do Interior. Em seu lugar, foi nomeado Rubén Candia Amarilla, proveniente do opositor Partido Colorado, o qual Lugo derrotou nas urnas em 2008, após 60 anos de ditadura colorada, incluindo a tirania de Alfredo Stroessner.
Candia foi ministro da Justiça do governo colorado de Nicanor Duarte (2003-2008) e atuou como procurador geral do Estado por um período, até o ano passado, quando foi substituído por outro colorado, Javier Díaz Verón, por iniciativa do próprio Lugo. Candia é acusado de ter promovido a repressão contra dirigentes de organizações campesinas e de movimentos populares. Sua indicação como procurador geral do Estado em 2005 foi aprovada pelo então embaixador dos Estados Unidos, John F. Keen. Candia foi responsável por um maior controle do Ministério Público por parte da USAID e foi acusado por Lugo no início do governo de conspirar para tirá-lo do poder.
Após assumir como ministro político de Lugo, a primeira coisa que Candia fez foi anunciar o fim do protocolo de diálogo com os campesinos que ocupam propriedades. A mensagem foi clara: não haverá conversação, mas simplesmente a aplicação da lei, o que significa empregar a força policial repressiva sem contemplação. Dois dias depois de Candia assumir, os membros do UGP, encabeçados por Héctor Cristaldo, foram visitar o flamante ministro do Interior, a quem solicitaram garantias para a realização do tratoraço no dia 25. No entanto, Cristaldo disse que a medida de força poderia ser suspensa, em caso de sinais favoráveis para a UGP (leia-se: liberação das sementes transgênicas da Monsanto, destituição de Lovera e de outros ministros, entre outras vantagens para o grande capital e os oligarcas), levando o governo ainda mais para a direita.
Cristaldo é pré-candidato a deputado para as eleições de 2013 por um movimento interno do Partido Colorado, liderado por Horacio Cartes, um empresário investigado em passado recente nos Estados Unidos por lavagem de dinheiro e narcotráfico, segundo o próprio ABC Color, que foi ecoado por várias mensagens do Departamento de Estado dos EUA, conforme divulgado por Wikileaks. Entre elas, uma se referia diretamente a Cartes, no dia 15 de novembro de 2011.

Julgamento político de Lugo
Enquanto escrevia esse artigo, a UGP (4), alguns integrantes do Partido Colorado e os próprios integrantes do Partido Liberal Radical Autêntico (PLRA), dirigido pelo senador Blas Llano e aliado do governo até então, começaram a ameaçar com a abertura de um processo de impeachment de Fernando Lugo para destituí-lo do cargo de presidente da República. Lugo passou a depender do humor dos colorados para seguir como presidente do país, assim como do de seus aliados liberais, que passaram a ameaçá-lo com um julgamento político, seguramente buscando mais espaços de poder (dinheiro) como condição para a paz. O Partido Colorado, aliado a outros partidos minoritários de oposição tinha a maioria necessária para destituir o presidente de suas funções.
Talvez esperassem “os sinais favoráveis” de Lugo que a UGP – em nome da Monsanto, da pátria financeira e dos oligarcas – estava exigindo do governo. Caso contrário se passaria à fase seguinte, de interrupção deste governo que nasceu como progressista e lentamente foi terminando como conservador, controlado pelos poderes da oposição.
Entre outras coisas, Lugo é responsável pela aprovação da Lei Antiterrorista, patrocinada pelos EUA em todo o mundo depois do 11 de setembro. Em 2010, ele autorizou a implementação da Iniciativa Zona Norte, que consiste na instalação e deslocamento de tropas e civis norteamericanos no norte da região oriental – no nariz do Brasil – supostamente para desenvolver atividades a favor das comunidades campesinas.
A Frente Guazú, coalizão das esquerdas que apoia Lugo, não conseguiu unificar seu discurso e seus integrantes acabaram perdendo a perspectiva na análise do poder real, ficando presos nos jogos eleitorais imediatistas. Infiltrados pelo USAID, muitos integrantes da Frente Guazú, que participavam da administração do Estado, sucumbiram ao canto de sereia do consumismo galopante do neoliberalismo. Se corromperam até os ossos, convertendo-se em cópias vaidosas de novos ricos que integravam os recentes governos do direitista Partido Colorado.
Curuguaty também engloba uma mensagem para a região, especialmente para o Brasil, em cuja fronteira se produziram esses fatos sangrentos, claramente dirigidos pelos senhores da guerra, cujos teatros de operações estão montados no Iraque, Líbia, Afeganistão e, agora, Síria. O Brasil está construindo um processo de hegemonia mundial junto com a Rússia, Índia e China, denominado BRIC. No entanto, os EUA não recuam na tentativa de manter seu poder de influência na região. Já está em marcha o novo eixo comercial integrado por México, Panamá, Colômbia, Peru e Chile. É um muro de contenção aos desejos expansionistas do Brasil na direção do Pacífico.
Enquanto isso, Washington segue sua ofensiva diplomática em Brasília, tratando de convencer o governo de Dilma Rousseff a estreitar vínculos comerciais, tecnológicos e militares. Além disso, a IV Frota dos EUA, reativada há alguns anos após estar fora de serviço desde o fim da Segunda Guerra Mundial, vigia todo o Atlântico Sul, caracterizando um outro cerco ao Brasil, caso a persuasão diplomática não funcione.
E o Paraguai é um país em disputa entre ambos países hegemônicos, sendo ainda amplamente dominado pelos EUA. Por isso, os eventos de Curuguaty representam também um pequeno sinal para o Brasil, no sentido de que o Paraguai pode se converter em um obstáculo para o desenvolvimento do sudoeste do Brasil.
Mas, acima de tudo, os mortos de Curuguaty representam um sinal do grande capital, do extrativismo explorador que assola o planeta e aplasta a vida em todos os rincões da Terra em nome da civilização e do desenvolvimento. Felizmente, os povos do mundo também vêm dando respostas a estes sinais da morte, com sinais de resistência, de dignidade e de respeito a todas as formas de vida no planeta.

Depois do Tocantins, do Madeira e do Xingu, chegou a vez de barrar o Tapajós


por Luiz Carlos Azenha
Fim de tarde no rio Tapajós, entre Santarém e Itaituba, no Pará

A hidrelétrica de Tucuruí, no rio Tocantins, foi a última grande obra da ditadura militar. Megalomaníaca. Ergueu-se um imenso paredão de concreto e produziu-se um imenso lago, contra tudo e contra todos.
Os objetivos eram “estratégicos”, nos diziam.

Estratégicos para o Japão, por exemplo, que queria se livrar de suas indústrias de alumínio e fazia um movimento para exportá-las, transferindo para o Exterior o peso de produzir energia. A produção de alumínio é a atividade industrial mais eletrointesiva.
Os japoneses prometeram participar da construção de Tucuruí. No meio do caminho, desistiram. Mas ergueram no Pará, mais especificamente em Barcarena, sua fábrica de alumínio. A Albrás está entre as dez maiores do mundo, fornece cerca de 15% de todo o alumínio consumido no Japão. Na vizinhança tem a Alunorte, que produz alumina. E em São Luís do Maranhão tem a Alumar, que produz alumina e alumínio.
Tucuruí saiu com um sobrepreço gigantesco. Atribuiu-se o preço ao “custo Amazônia”, mas Lúcio Flávio Pinto, o jornalista que é autor do livro Tucuruí, a barragem da ditadura, suspeita que tenha havido mesmo “custo enriquecimento pessoal” de envolvidos.
Entre 1984 e 2004, a Albrás recebeu subsídio de U$ 2 bilhões de dólares na energia de Tucuruí que consumiu! Daria para construir uma fábrica nova.
A Companhia Vale do Rio Doce, então nossa Vale, chegou a ser sócia da Albrás. Mas, já privatizada, vendeu sua participação.
Hoje a Albrás pertence à parceria entre a Nippon Amazon Aluminium, um consórcio de empresas japonesas, e a norueguesa Norsk Hydro.
A Hydro também controla a exploração de bauxita em Paragominas, no Pará, que transforma em alumina na Alunorte, em Barcarena.
A Alumar, instalada em São Luís, pertence à Alcoa, BHP Billiton e RioTintoAlcan.
[A RioTintoAlcan é a mesma que pretende produzir alumínio no Paraguai comprando parte da energia de Itaipu. Mas, aparentemente, quer energia subsidiada]
Sem Tucuruí não haveria essas empresas “brasileiras”, por falta de energia.
Por um tempo muitos de nós imaginamos que a Amazônia seria tratada de uma maneira especial pelo governo brasileiro, dadas as suas especificidades.
Mas o crescimento da economia coloca o País diante de alguns dilemas sobre os quais, curiosamente, praticamente não existe debate nacional. Uma destas questões diz respeito à construção de hidrelétricas na Amazônia.
Depois do Tocantins (Tucuruí), do Madeira (Santo Antonio e Jirau) e do Xingu (Belo Monte), o próximo rio da região a ser barrado é o Tapajós.
Em seus planos, o Ministério das Minas e Energia prevê até 2020 a construção de várias hidrelétricas na bacia do Tapajós-Juruena-Teles Pires.
Em 29 de maio deste ano o Senado aprovou a MP 558, que alterou os limites de sete unidades de conservação, o que, entre outras coisas, viabiliza a construção de hidrelétricas.


Um sinal importante — e bem concreto — de que os planos estão andando.
Em Itaituba, no Pará, muita gente espera pela primeira hidrelétrica ansiosamente, acreditando que vai trazer “desenvolvimento”.
Mas há os críticos, especialmente os ligados ao Parque Nacional da Amazônia, que perdeu um pedaço onde ficam atrativos que poderiam, no futuro, viabilizar o turismo regional.
Entre os ambientalistas e interessados no assunto, o debate é grande.
Nossa primeira contribuição é reproduzir a entrevista que fizemos com o jornalista Lúcio Flávio Pinto, em Belém, que há 46 anos trata de assuntos relativos à Amazônia.
Ele começa falando sobre o projeto do kibutz científico que, acredita, poderia ajudar a mudar a mentalidade ainda corrente de que floresta boa é floresta deitada.
Mas ele trata de outros temas, como o fato de que a Vale engorda enquanto o Pará emagrece. Parte disso se deve à famosa Lei Kandir, que em 1996 isentou do pagamento de impostos os produtos primários e industrializados semi-elaborados destinados à exportação.
Que coincidência, no ano seguinte a Vale foi privatizada!

quarta-feira, 27 de junho de 2012

Evidências e fatos que materializam a precarização e os indícios de irregularidades nas contas da UFOPA

Fonte: SINDUFOPA e DCE UFOPA

 No dia 04 de junho de 2012, uma comissão de representantes dos comandos de greve da UFOPA (docentes e estudantes) se reuniu com o Secretário de Ensino Superior do Ministério da Educação, Amaro Henrique Lins, em Brasília onde expuseram as reivindicações do movimento grevista da Universidade.
Na ocasião, o Diretório Central de Estudantes (DCE) protocolou documentos sobre os indícios de corrupção e irregularidades nas contas da gestão Seixas Lourenço, documentos estes que já foram encaminhados ao Ministério Público Federal para apuração das denúncias (veja aqui). O Sindicato dos Docentes da UFOPA (SINDUFOPA) protocolou um dossiê intitulado “PRECARIZAÇÃODAS CONDIÇÕES DE TRABALHO DOCENTE NA UNIVERSIDADE FEDERAL DO OESTE DO PARÁ –UFOPA”, com documentos sobre a precarização do trabalho docente, assédio moral/perseguição, quebra de autonomia docente e sobrecarga de trabalho e irregularidades administrativas.
O Dossiê do SINDUFOPA consta de mais de 40 documentos que comprovam as denúncias feitas pelo sindicato, entre eles, e-mails de membros da administração superior onde fica clara a tentativa de intimidação e prática de assédio moral na Universidade.
Abaixo, reproduziremos parte do documento do SINDUFOPA, o documento completo pode ser visto aqui.
Os documentos comprobatórios estão disponíveis nos links:

PRECARIZAÇÃO DAS CONDIÇÕES DE TRABALHO DOCENTE NA UNIVERSIDADE FEDERAL DO OESTE DO PARÁ - UFOPA
SANTARÉM-PA - JUNHO/2012
SINDUFOPA S. Sind – ANDES-SN
Seção Sindical dos Docentes da Universidade Federal do Oeste do Pará

PARTE I - Breve descrição de evidências e fatos que materializam as precárias condições de trabalho docente na UFOPA

1 - ASSÉDIO MORAL/ PERSEGUIÇÃO
A Administração superior vem retaliando e perseguindo diversos professores(as) críticos(as) com o modelo acadêmico imposto e com a gestão desta Reitoria Pro-Tempore, caracterizada pela sua natureza arbitrária, pouco transparente e antidemocrática. Eis aqui algumas evidências e fatos comprobatórios:
1.1 - Em 15 de novembro de 2010, ex- Diretora do Centro de Formação Interdisciplinar (CFI) e atual assessora especial do Reitor Pro-Tempore, Dra. Dóris Farias, em mensagem “exclusivamente para seus docentes” sugere às “pessoas contrárias ao modelo acadêmico imposto” saírem da unidade acadêmica (CFI) e inclusive da Universidade (anexo 01). Apesar do teor ameaçador da mensagem, a partir dessa data, a Direção do CFI não facilitou nenhuma remoção de professores para outras unidades acadêmicas da instituição (ver cópias de remoções denegadas do Prof. Ricardo Scoles, anexos 03, 04 e 21).
1.2 - Em 17 de dezembro de 2011, a professora Dra. Dóris Faria, ex- Diretora do Centro de Formação Interdisciplinar (CFI) e atual assessora especial do Reitor Pro-Tempore, em resposta a solicitação de remoção do Prof. Dr. Ricardo Scoles, protocolada esta o 17 de novembro de 2010 (anexo 02), desqualifica o docente repetidas vezes a longo do texto (exemplos: anexo 03: “parece um ato de loucura ainda haver que afirme tal disparate!”; anexo 22 e 22b: “fica óbvio que não podemos ver em si qualquer interesse em promover alguma melhoria em nosso centro, jamais tivemos de si alguma ação ou atitude que fosse mais construtiva”)
1.3 - Em Janeiro/2011, E-mail da Profa. Doris Farias, ex- Diretora do Centro de Formação Interdisciplinar (CFI) e atual assessora especial do Reitor Pro-Tempore, desqualifica publicamente docentes da UFOPA de forma altamente agressiva: “só mesmo a reação local poderá calar estas bocas cheias de vermes, estas mãos tão inúteis, estas idéias tão mofadas!” (anexo 05)
1.4 - Em marco/2011, após manifestação estudantil durante a Aula Magna, ocorre a instauração de Processo Administrativo Disciplinar - Portaria nº 1.011, de 19/03/2011 (anexos 06 e 07) para processar o Prof. Dr. Gilson Costa (segue defesa do docente indiciado protocolada na UFOPA, anexo 08). Também foi processado o técnico administrativo Wallace Carneiro de Sousa. Tais processos culminaram na advertência do docente e do técnico.
1.5 - Pedagogia do medo: Por conta também da manifestação na Aula Magna/2011, a reitoria da UFOPA instaurou processos contra aproximadamente 40 estudantes (anexos 09, 10, 11, 12, 13).
1.6 - Após instauração dos PADs, os docentes da UFOPA, reunidos em assembleia, solicitam invalidação da Portaria 11.011. (anexo 14). Tal solicitação foi negada pela Administração Superior.
1.7 - Em setembro/2011, o ANDES-SN divulga matéria sobre “assédio moral na UFOPA” (anexo 15).
1.8 - E-mail de Convocação da Direção do Centro de Formação Interdisciplinar (CFI) do dia 28 de fevereiro de 2012 destinado à Profª Márcia Saraiva solicitando comparecimento no local de trabalho e insinuando, desrespeitosamente, desaparecimento da servidora do local de trabalho (anexo 16). É importante ressaltar que tal convocação se deu no contexto em que a professora estava solicitando antecipação da Licença Maternidade. Profª Márcia Saraiva é Diretora do Sindicato e já sofreu várias ações de assédio moral e retaliações por parte da Direção do CFI. Em carta pública dirigida a Comunidade Acadêmica da UFOPA, a profª Marcia Saraiva denuncia as atitudes desrespeitosas da Direção do CFI (anexo 17)
1.9 - Quatro professores do Centro de Formação Interdisciplinar (CFI) receberam notificação do parecer conclusivo do Primeiro Ano do Estágio Probatório (março 2012) quase quatro meses depois dos pareceres individuais (outubro 2011) e oito meses depois da autoavaliação realizada pelo servidor (julho 2011). As quatro avaliações tiveram pontuação baixa, apesar de que a Comissão de Avaliação não apresentou fatos comprobatórios que justificassem tais pontuações (anexo 18: cópia de uma das avaliações). Após solicitação de cópia do processo por parte dos professores, a Direção Gestão e Desenvolvimento de Pessoas (DGDP) da UFOPA retornou os pareceres para a Comissão de Avaliação por erros de forma, deixando o processo estagnado, inconcluso. Destaca-se que um dos professores recebeu avaliação final de 2,6 sobre 10 apesar de ter boas avaliações entre os discentes e ter publicado, nos últimos dois anos, quatro artigos científicos, dois deles em revista de alto impacto (Human Ecology; Forest, Ecology and Management; anexo 19: capa dos quatro artigos publicados pelo docente).
1.9.1 – Segue também “Relatório de Assédio Moral de dirigentes da UFOPA sobre o servidor Gilberto César Lopes Rodrigues”: o professor descreve situações de assedio moral promovidas pela Sra. Dóris Santos de Faria (ex-diretora do Centro de Formação Interdisciplinar e atual Assessora Especial da Reitoria da UFOPA) e pelo Sr. Aldo Queiroz, Pró-reitor de Planejamento da Instituição (anexo20).

2 - PRECÁRIAS CONDIÇÕES DE TRABALHO/ SOBRECARGA
A UFOPA é fruto do REUNI – Programa de Reestruturação e Expansão das Universidades Federais – ampliou no número de vagas ofertadas no Ensino Superior, mas não garantiu os recursos necessários para essa expansão. Assim, em muitas universidades federais faltam professores, espaços e equipamentos. Na UFOPA, a coisa não é diferente. Faltam espaços de trabalho para os docentes, alunos ainda estudam em espaços alugados/improvisados e a sobrecarga de trabalho passa a ser naturalizada. Evidências dessa situação:
2.1 - Em Dezembro/2011na “Carta de Esclarecimentos” (anexo 23), a Profª Fátima Matos, atual diretora do Centro de Formação Interdisciplinar CFI, revela em vários trechos a sobrecarga de trabalho docente na UFOPA e no PARFOR.
2.2 - Em Dezembro/ 2012, a diretoria da SINDUFOPA se reuniu com a Reitoria da UFOPA e exigiu melhoria das condições de trabalho (garantia da autonomia docente e espaços dignos de trabalho para todos os professores) por meio do Ofício nº 02/2011 (anexo 24). Até o momento nenhuma atitude concreta foi tomada pela Reitoria.
2.3 - Em janeiro/2012, a partir das várias denúncias feitas pela direção da SINDUFOPA, o ANDES – SN divulgou matéria em seu Site Oficial (www.andes.org.br) relatando a expansão precarizada das IFES da Região Norte (anexo25).
2.4 - Em Fevereiro/2012, na “Carta Aberta: trabalho precarizado no PARFOR” (anexo 26) a SINDUFOPA denunciou as precárias condições de trabalho docente no Programa Nacional de Formação de Professores de Educação Básica – PARFOR. Essa carta foi também encaminhada ao Ministério Público Federal (anexo 43)
2.5 – Nos dias 12 e 13 de março/2012 – após aprovação em Assembleia Geral Docente – professores da UFOPA paralisaram suas atividades devido às precárias condições de trabalho as quais são submetidos na instituição. A pauta local de reivindicação dos professores foi amplamente divulgada (anexo 27).
2.6. Muitos docentes da instituição tem sobrecarga de trabalho e apresentam Planos Individuais de Trabalho (PIT) com carga horária que ultrapassa as 40 horas semanais, o que tem obrigado a estes servidores públicos a desenvolver as atividades de pesquisa e extensão os fines de semana (anexo 28: PIT de 2º semestre de 2011 de um docente com o computo de 61 horas semanais!).

3 - IRREGULARIDADES ADMINISTRATIVAS
Dois casos são emblemáticos dentro da UFOPA: 1) afastamento de servidor público federal para tratamento de saúde por meio de Laudo Médico Pericial Inverídico; 2) existência de professores que não são da Carreira de Magistério Superior Ministrando aulas na Universidade e assumindo cargos de direção.
3.1 - Em Dezembro/ 2011, a Diretoria da SINDUFOPA, reunida com a Reitoria da UFOPA, protocolou o Ofício nº 05/2011 (anexo 29), até o momento não respondido, que solicita esclarecimentos referentes a dois fatos relacionados ao Laudo Médico Pericial nº 0.081.342/2011 (anexo 30) que culminou na Licença para Tratamento de Saúde do Prof. Dr. Gilson Costa, docente lotado no Instituto de Ciências e Sociedade – ICS (anexo 31: Portaria 1.428, de 07 de dezembro de 2011; anexo 32: Mem. nº 1.205-2011-DGDP). No Ofício nº 05/2011, são estes os dois fatos apresentados:“FATO PRIMEIRO: O referido laudo informa que a perícia foi realizada em Belém-PA, no dia 03 de novembro de 2011. Entretanto, o docente afirma que nenhuma perícia foi realizada e que na referida data se encontrava na cidade de Santarém-PA. Considerando que um laudo pericial deve ser feito mediante presença do servidor, esta diretoria solicita esclarecimentos sobre o procedimento adotado por esta Instituição Federal de Ensino Superior para a realização da perícia oficial do prof. Gilson Costa. FATO SEGUNDO: No dia 12 de dezembro de 2011, via e-mail (anexo), o docente foi informado do “Cancelamento da Perícia”; diante disso, esta diretoria solicita esclarecimentos sobre o procedimento adotado pela instituição para o cancelamento da referia perícia médica oficial, visto que uma perícia somente pode ser cancelada após o servidor ser submetido a nova inspeção médica, que concluirá pela volta ao trabalho ou pela prorrogação da licença”
3.2 - Em Fevereiro/ 2012 a Diretoria da SINDUFOPA (anexo) encaminhou ofício nº 03/2012 (anexo 33) solicitando que da Reitoria a relação de professores da Educação Básica que estão exercendo funções na UFOPA. Em anexo, seguem pareceres nº 344/2007, 347/2007, 350/2007 e 351/2007 (respectivamente os anexos 34, 35, 36, 37a e 37b), do Procurador Federal Bernardino Ribeiro, que confirmam que “professores do magistério de primeiro e segundo graus não podem atuar como docentes do ensino superior sem aprovação e classificação em concurso público, nos moldes das disposições da Constituição Federal e da legislação vigente”. O ofício nº 03/2012 até o momento também não foi respondido.
3.3 - Em maio/2012, a Diretoria da SINDUFOPA solicitou, por meio do Ofício nº 13/2012 (anexo 38), impugnação da banca de Avaliação de Estágio Probatório I Etapa dos (as) docentes concursados Myrian Sá Leitão Barboza, Nelcilene da Silva Palhano, Ricardo Scoles e Rodrigo Canal, professores (as) do Centro de Formação Interdisciplinar- CFI, da UFOPA, que foram avaliados (as) por comissão composta por professora que não prestou concurso para a Carreira do Magistério Superior (Profª. Dra. Fatima Matos). Uma cópia desse ofício já foi encaminhada ao Ministério Publico Federal – MPF (anexo 39), juntamente com o parecer nº 350/2007 e a Instrução Normativa nº 8 (anexo 40), de fevereiro de 2011, que dispõe sobre o Procedimento de Avaliação do Estágio Probatório dos servidores Técnicos Administrativos em Educação e Docentes da UFOPA.

4 - QUEBRA DA AUTONOMIA DOCENTE
O modelo acadêmico da UFOPA tem intensificado o processo de precarização do trabalho docente, das relações acadêmicas solidárias e do ensino superior público. Evidências:
4.1 - Em Junho/2011 ocorreu a Divulgação da Carta “IDA: falso ou verdadeiro” (anexo 41), assinada por professores da Universidade, que questiona os processos avaliativos do Centro de Formação Interdisciplinar-CFI, bem como o próprio modelo acadêmico. Em anexo, normativa que regula o calculo da nota dos acadêmicos ingressos na UFOPA.
4.2 - Em novembro/2011 a Diretoria do SINDUFOPA divulgou nota de repúdio (anexo 42) reprovando a decisão de inutilização da disciplina “Formação Social, Política e Econômica do Brasil”, do Instituto de Ciências da Sociedade - ICS, divulgada pelo memorando 0235/2011, da Pró-Reitoria de Ensino de Graduação – PROEN/UFOPA (anexo 47).

Pátria Amada: Decretada prisão preventiva de ativistas o Xingu Vivo em Altamira.


Movimento Xingú Vivo

Informações que chegam agora de Altamira – PA, confirmam que foi decretada a prisão preventiva de 11 ativistas do Movimento Xingu Vivo para Sempre, que participaram do Seminário “Xingu + 23” de 13 a 20 de junho deste ano.
Segundo fontes do Movimento, o pedido de habeas corpus preventivo, que tinha sido encaminhado pelo advogado Marco Apolo Leão, foi negado pela Juíza da 3 Vara Penal de Altamira.
Por sua vez a mesma Juíza acolheu o pedido da polícia civil e decretou a prisão preventiva dos 11 ativistas.
A polícia de Altamira, na tentativa de criar factóides em favor da NESA e do CCBM, já está considerando os ativistas como foragidos, quando na verdade são padres, freiras, pescadores, jornalistas e pessoas ligadas aos Movimentos Sociais e dos Direitos Humanos. Todos com endereço fixo, profissão reconhecidas e sem antecedentes criminais.
Mais uma vez a justiça brasileira se coloca ao lado dos poderosos, criminalizando pessoas que optaram lutar em defesa da vida e dos povos do Xingu.

quarta-feira, 20 de junho de 2012

Cúpula dos Povos promete grande manifestação na Zona Oeste

Encontro acontece na Vila do Autódromo, nesta quarta (20), a partir das 8h. Grupo protesta a favor da comunidade ameaçada por obras na região.


Do G1 RJ


Os movimentos populares participantes da Cúpula dos Povos, maior evento paralelo à Rio+20, prometem realizar nesta quarta-feira (20) uma grande manifestação na Zona Oeste do Rio de Janeiro. Apesar da Cúpula estar localizada no Aterro do Flamengo, Zona Sul da cidade, o encontro será na Vila do Autódromo, às 8h. Vários ônibus sairão dos alojamentos a partir das 6h20.
A manifestação do Dia das Grandes Marchas dos Povos e dos Movimentos Sociais irá até o Riocentro. Os participantes irão protestar a favor da comunidade ameaçada pelas obras dos Jogos Olímpicos.
Ainda pela manhã, às 11h, acontece mais um evento da Cúpula dos Povos. O Complexo do Alemão recebe o Projeto Verdejar, que é a qualificação de jovens para a construção de cisternas de 16 mil litros de água.
No período da tarde, às 15h, o Centro do Teatro Oprimido vai fazer uma passeata mostrando o momento político e estético através da teatralização. A manifestação, que reunirá vários movimentos sociais, começa na Candelária e vai até a Cinelândia, no Centro do Rio.
Entre as atividades da Cúpula que acontecem no Aterro do Flamengo, estão previstas: Gaia Education – Ecovillages and Transition Towns, um laboratório sobre Práticas Sustentáveis, que acontece na Tenda Maria Bonita (G), das 18h às 20h30 e ainda o workshop “Right to Water”, Territórios do Futuro / Direito à Água, organizado pelo Institute for Agriculture and Trade Policy, que será na Tenda Olga Benário, das 11h30 às 13h30.


Cúpula dos Povos
A Cúpula dos Povos é um evento paralelo à Rio+20, onde organizações da sociedade civil discutem temas relacionados à Conferência da ONU sobre Desenvolvimento Sustentável. A organização espera reunir 18 mil pessoas.




Programação
O público esperado para essa edição do evento é quase o dobro do que compareceu à Cúpula dos Povos em 1992, durante a Rio-92. O encontro quer que os temas discutidos na Rio+20 não fiquem só no papel, mas se transformem em práticas sociais. Para saber toda a programação do evento, com os horários das atividades, acesse o link aqui.
A ideia dos organizadores é ir além dos temas que serão debatidos no Riocentro, onde acontece a conferência oficial com representantes de 193 países, e realizar debates de forma independente, e com a possibilidade de assumir tons mais críticos ao que está sendo decidido pelos governos.
Um mês antes do início da conferência, representantes da Cúpula dos Povos apresentaram um documento mostrando que o debate principal do grupo vai girar em torno da rejeição à mercantilização da natureza e ao que chamam de "economia verde".
Entre os temas a serem debatidos estão não apenas o próprio desenvolvimento sustentável, mas também o conceito de economia verde, assuntos relativos a florestas, oceanos, a crise econômica global e seus reflexos sobre o G-20, e os conflitos socioambientais nos Estados Unidos e na Europa.
A Cúpula dos Povos vai ter debates até o sábado (23), depois do encerramento da conferência oficial.

Protestos fecham Parque dos Atletas nesta quarta-feira


Somente expositores credenciados terão acesso exclusivo ao local. Manifestações vão ocorrer na região da Barra da Tijuca e Centro.


Do G1 RJ


O Parque dos Atletas, ao lado Riocentro, na Zona Oeste do Rio de Janeiro, será fechado durante a parte da manhã nesta quarta-feira (20), devido a três manifestações que estão previstas para ocorrer perto do local. O parque é onde os chefes de Estado vão se reunir para a Cúpula da Conferência das Nações Unidas sobre Desenvolvimento Sustentável - Rio+20. As informações foram divulgadas pelo Centro de Operações da prefeitura da cidade, na noite desta terça-feira (19).
De acordo com o Centro de Operações, somente expositores credenciados terão acesso exclusivo ao local. Os protestos serão da Cúpula dos Povos e vão ocorrer na região da Barra da Tijuca e do Centro da cidade.
A primeira manifestação está prevista para ocorrer às 9h na Avenida Embaixador Abelardo Bueno, na Barra da Tijuca, na Zona Oeste, e as outras duas têm previsão para a parte da tarde, na Avenida Presidente Vargas, na altura da Avenida Rio Branco, no Centro.
Ainda de acordo com o Centro de Operações, caso os protestos ocorram, operadores da Companhia de Engenharia de Tráfego do Rio de Janeiro (CET-Rio) ficarão posicionados nos principais cruzamentos das vias e também utilizarão painéis de mensagens variáveis por meio de 35 câmeras posicionadas ao longo do percurso.
 Avenidas Salvador Allende e Embaixador Abelardo Bueno
Uma manifestação da Cúpula dos Povos também programada para acontecer na manhã desta quarta-feira (20), antecipou para as 7h o fechamento das avenidas Salvador Allende e Embaixador Abelardo Bueno, ambas na Barra da Tijuca, na Zona Oeste da cidade.
As vias, que seriam interditadas às 17h, tiveram o horário antecipado devido a um pedido do Comando Militar do Leste (CML) que visa garantir a segurança dos chefes de Estado que vão chegar à cidade no dia do protesto.
A Avenida Salvador Allende será interditada em ambos os sentidos, no trecho entre o primeiro retorno após a Avenida das Américas até a Estrada dos Bandeirantes. Já na Embaixador Abelardo Bueno, a interdição também ocorre nos dois sentidos, entre a Salvador Allende e a Estrada Coronel Pedro Correa. O acesso será exclusivo somente para carros credenciados e moradores da região.
O horário de reabertura de ambas as avenidas está previsto para as 22h.

terça-feira, 19 de junho de 2012

Movimentos populares prometem 2° dia de protestos na Cúpula dos Povos


Pela manhã, haverá ato contra militares que participaram da ditadura. À tarde, grupos organizam Marcha da Maconha no Aterro do Flamengo.
Do G1 RJ

 Os movimentos populares participantes da Cúpula dos Povos, maior evento paralelo à Rio+20, prometem realizar nesta terça-feira (19) mais um dia de protestos na cidade. Pela manhã, está programado um ato contra militares que participaram da ditadura. À tarde, haverá a Marcha da Maconha, no Aterro do Flamengo, na Zona Sul, pedindo por mudanças na legislação da política de drogas do país.
Às 8h, integrantes da Articulação Nacional pela Verdade e Justiça junto com a Via Campesina vão se concentrar na Avenida Pasteur, na Urca, também na Zona Sul. Os manifestantes cobram pelo julgamento de ex-agentes da ditadura militar.
A partir das 14h, grupos favoráveis à descriminalização da maconha e ao cultivo caseiro da erva se concentram no Museu de Arte Moderna (MAM). De acordo com os organizadores, às 16h20, os protestantes seguem para uma caminhada pelo Aterro do Flamengo, onde acontecem os debates da Cúpula dos Povos.
Na segunda-feira (18), três protestos causaram um caos no trânsito nas principais vias do Centro.

Cúpula dos Povos
A Cúpula dos Povos é um evento paralelo à Rio+20, onde organizações da sociedade civil discutem temas relacionados à Conferência da ONU sobre Desenvolvimento Sustentável. A organização espera reunir 18 mil pessoas.

Programação
O público esperado para essa edição do evento é quase o dobro do que compareceu à Cúpula dos Povos em 1992, durante a Rio-92. O encontro quer que os temas discutidos na Rio+20 não fiquem só no papel, mas se transformem em práticas sociais. Para saber toda a programação do evento, com os horários das atividades, acesse o link aqui.
A ideia dos organizadores é ir além dos temas que serão debatidos no Riocentro, onde acontece a conferência oficial com representantes de 193 países, e realizar debates de forma independente, e com a possibilidade de assumir tons mais críticos ao que está sendo decidido pelos governos.
Um mês antes do início da conferência, representantes da Cúpula dos Povos apresentaram um documento mostrando que o debate principal do grupo vai girar em torno da rejeição à mercantilização da natureza e ao que chamam de "economia verde".
Entre os temas a serem debatidos estão não apenas o próprio desenvolvimento sustentável, mas também o conceito de economia verde, assuntos relativos a florestas, oceanos, a crise econômica global e seus reflexos sobre o G-20, e os conflitos socioambientais nos Estados Unidos e na Europa.
A Cúpula dos Povos vai ter debates até o sábado (23), depois do encerramento da conferência oficial.

Servidores do Itamaraty entram em greve


Agência Estado

 
BRASÍLIA - Pela primeira vez na sua história, o Itamaraty enfrenta, desde esta segunda-feira, 18, uma greve dos seus servidores. Oficiais de Chancelaria, Assistentes de Chancelaria e, de acordo com o sindicato da categoria, até mesmo alguns diplomatas decidiram pela paralisação em uma assembleia realizada em Brasília, que contou com a participação, via redes sociais, de funcionários de fora do País.
Pelo menos 60 postos no exterior, incluindo o atendimento consular em Paris, Roma, Londres, Nova York, Los Angeles e Washington serão afetados. Às vésperas das férias de julho, o problema pode repercutir diretamente nos milhares de brasileiros que devem viajar para o exterior nos próximos dias e nos estrangeiros que virão ao Brasil. Uma das poucas atividades que não serão prejudicadas pela greve é a organização da Conferência Rio +20.
A decisão da assembleia ressalta que o os funcionários que estão na organização do encontro de mais de 150 chefes de Estado, que termina no final dessa semana, será preservado. Nele estão mais de 200 diplomatas, oficiais e assistentes. Dos cerca de 500 que ficaram em Brasília, 300 participaram da assembleia.
Os oficiais e os assistentes de chancelaria são, normalmente, os responsáveis pelas funções administrativas das embaixadas, consulados e também da sede do ministério, em Brasília. O trabalho inclui também o atendimento direto ao público, o atendimento telefônico das unidades consulares e até mesmo a emissão de novos passaportes - que, apesar de ser autorizada pelos diplomatas, passa pelas mãos dos oficiais. O Itamaraty admite que durante o período da greve, o trabalho poderá ficar mais lento e terá que ser assumido pelos diplomatas.
De acordo com o SindItamaraty, que representa todas as categorias de servidores do chamado Serviço Exterior Brasileiro, o que os funcionários querem é a equiparação com os salários mais altos das carreiras de Estado. No caso dos diplomatas, os vencimentos subiriam pouco: dos atuais R$ 12.960, em início de carreira, para os R$ 13,6 mil de um auditor fiscal. O salário final passaria de R$ 18.470 para R$ 19.689, os vencimentos de um delegado da Polícia Federal.
Os maiores aumentos seriam para os Oficiais e Assistentes. Os primeiros, que hoje recebem inicialmente R$ 6,3 mil, passariam para a segunda categoria de vencimentos de nível superior do governo federal, R$ 12.960. Os assistentes passariam à primeira categoria dos cargos de ensino médio, saindo de um salário R$ 3,1 mil para R$ 5,8 mil - em valores de hoje, já que a maior parte das categorias classificadas nessas faixas também hoje pede reajustes, que os servidores do Itamaraty também pretendem receber.
Em uma carta enviada ao ministro das Relações Exteriores, Antonio de Aguiar Patriota, no dia 14 deste mês, os servidores informavam sobre a possibilidade de greve e suas reivindicações, que estão sendo negociadas com o Ministério do Planejamento. Até agora, no entanto, não houve nenhum sinal positivo. Os servidores já haviam feito uma paralisação no dia 30 de maio, mas as negociações não avançaram. A greve é por tempo indeterminado, mas uma nova assembleia foi marcada para sexta-feira com a intenção de avaliar alguma proposta do Planejamento, se houver.

Rádio que funcionava na Cúpula dos Povos, no Rio, é fechada


G1

Emissora funcionava sem autorização do Ministério das Comunicações. Sinal da rádio poderia prejudicar tráfego aéreo, dizem especialistas.

 
A Agência Nacional das Telecomunicações (Anatel) tirou do ar a rádio que funcionava na Cúpula dos Povos, no Aterro do Flamengo, na Zona Sul do Rio, na noite de domingo (17). A emissora não tinha autorização do Ministério das Comunicações para funcionar e, segundo técnicos, o sinal poderia interferir no controle do tráfego aéreo do Aeroporto Santos Dumont, no Centro do Rio, conforme mostrou o Bom Dia Rio.
Manifestantes cercaram a rádio e policiais fizeram o patrulhamento no local. A reunião com o secretário executivo das telecomunicações e representantes da rádio durou mais de duas horas e era fechada. Depois de analisar os equipamentos utilizados para a transmissão veio a determinação para suspender as transmissões, uma vez que havia risco de interferência nas comunicações das aeronaves.
O instrumento conhecido como analisador de espectro é usado para confirmar o uso radiofreqüência. Sempre que o sinal oscila, significa que há alguém se comunicando por ondas de rádio.
De acordo com o secretário executivo do Ministério das Comunicações Cézar Alvarez, a rádio será reaberta assim que houver a confirmação da viabilidade do uso dos equipamentos. “A programação ficará suspensa até o momento em que encontra-se uma nova freqüência e eles sejam capaz de ter um equipamento confirmado por nós sem estes problemas. Isso acontecendo, haverá, então, uma licença extraordinária”, disse.
Segundo o representante do ministério, há a possibilidade de a rádio voltar a operar ainda nesta segunda-feira (18), após a regularização da situação dos equipamentos da emissora.
Para Arthur William, da Associação Mundial da Rádio Cúpula dos Povos, o processo de legalização da rádio pode ser demorado.
“O ministério de Comunicações vai viabilizar a legalização da Rádio Cúpula dos Povos para que ela volte a operar amparada pela lei, que é um processo muito burocrático legalmente para as rádios comunitárias fazerem isso. Então a gente, através dessa pressão da sociedade vamos agilizar esse processo da Rádio Cúpula dos Povos”, explicou.

Mulheres tiram a blusa para protestar pelas ruas do Rio

G1

Grupo saiu da Cúpula dos Povos e seguiu até o Largo da Carioca, no Centro. Elas pediram justiça social e ambiental durante a Rio+20 nesta segunda.
Integrantes de 31 entidades feministas tiraram a camisa durante a Marcha das Mulheres, no começo da tarde desta segunda-feira (18). Elas pediram justiça social e ambiental durante as atividades da Cúpula dos Povos, evento paralelo à Rio+20.
Cerca de 5 mil mulheres circularam pelo Centro do Rio e provocaram congestionamento na região, segundo informações da CET-Rio.
O grupo seguiu pelas avenidas Almirante Barroso, Rio Branco e Nilo Peçanha e pela Rua da Assembleia, onde interromperam a caminhada no Largo da Carioca. A manifestação foi seguida por outra feita por indígenas de várias partes do país. Eles reivindicaram a demarcação de terras e exploração de territórios.
Para Alessandra Guerra, do grupo Tambores de Safo, de Fortaleza, a oportunidade serviu para mostrar que as mulheres ainda não têm espaços e oportunidades iguais às dos homens. "Nós também sentimos calor e queremos tirar a camisa sem sermos olhadas pelos homens como objetos, como carne. Somos pessoas como as outras e queremos ter esse direito."
"Somos um grupo de mulheres lésbicas e bissexuais que usa o batuque para fazer revolução. Estamos acompanhando a agenda da Cúpula dos Povos. Temos uma programação política e vamos acompanhar todas as marchas", disse Alessandra, que reclamou dos olhares sexualizados de alguns homens durante a caminhada no Rio.
"A gente até espera a reação das pessoas quando tiramos a camisa. Tentamos quebrar esse tabu porque faz parte da nossa cultura. Tanto homem como mulher se assustam com isso. O corpo da mulher precisa ser guardado por uma razão que não se sabe. Se usamos uma saia curta é porque queremos ser estupradas. Porque a sociedade não ensina os homens a não estuprar?", afirmou Alessandra, que é paulista e vive em Fortaleza há nove anos.

A estudante de engenharia ambiental Ludmila Rentas disse que a mulher precisa conquistar mais respeito dos homens. "É um absurdo. Estamos num país que adora exportar o carnaval, a nudez, o brilho e todo esse glamour que existe no carnaval, mas a mulher está se tornando um mero material para o prazer do homem. A gente luta por igualdade e respeito, não é uma visão machista e sexual que a gente espera."
Segundo ela, o homem ainda não está acostumado a ver uma mulher sem camisa. "O homem precisa aprender a olhar uma mulher com os seios de fora", disse Ludmila.


Organização
De acordo com Isabel Freitas, uma das organizadoras da Marcha das Mulheres, elas reivindicam a igualdade entre mulheres e homens e a legalização do aborto. "Vamos continuar a nossa marcha pelos direitos da mulher e pela igualdade social. Não podemos aceitar essa discriminação e diferença. Queremos igualdade de salários e cargos. Hoje é um dia especial para nos, num momento em que todos os lideres estão discutindo um futuro melhor para o nosso planeta. E é através disso que vamos passar nossa mensagem", disse.
A caminhada
Com faixas, camisas, bandeiras e carro de som, as mulheres saíram do Sambódromo, no Centro, às 7h30, e seguiram em marcha até o Museu de Arte Moderna (MAM), onde realizaram discursos e realizaram uma batucada.
No clima da Rio+20, as manifestantes usaram garrafas plásticas, vasilhas e baldes como tambores. Com rostos pintados, as mulheres chamaram a atenção de turistas e publico que visita a Cúpula dos Povos.
A Cúpula dos Povos é um evento paralelo à Rio+20, onde organizações da sociedade civil discutem temas relacionados à Conferência da ONU sobre Desenvolvimento Sustentável. A organização espera reunir 18 mil pessoas.

segunda-feira, 18 de junho de 2012

Dom Erwin Kräutler: “Lula e Dilma passarão para a História como predadores da Amazônia”



Movimento Xingú Vivo

O lendário bispo do Xingu, ameaçado de morte e sob escolta policial há seis anos, afirma que o PT traiu os povos da Amazônia e a causa ambiental (Eliane Brum, Época, 04.06.2012).
Afirma também que Belo Monte causará a destruição do Xingu e o genocídio das etnias indígenas que habitam a região há séculos. Há 47 anos no epicentro da guerra cada vez menos silenciosa e invisível travada na Amazônia, Dom Erwin Kräutler encarna um capítulo da história do Brasil.
Nesta segunda-feira, um homem grande, de sorriso caloroso e cabelos brancos, embarcou em um avião para o Brasil. Para o Brasil apenas, não. Para a Amazônia. Depois de 40 dias na Áustria, a terra onde nasceu, ele sente falta da geografia que escolheu para ser sua desde o momento em que, ainda jovem e tropeçando no português, descobriu maravilhado que o Reno é “um igarapé comparado ao Xingu”. Dom Erwin suspira de saudades do rio, das gentes, dos cheiros e até do clima da cidade paraense de Altamira, com temperaturas e humores tão intratáveis que só agrada aos mais fortes. Este homem, que circulava livremente por ruas imaculadas na primavera austríaca, onde foi garimpar recursos para projetos sociais na Amazônia, volta agora para sua rotina de prisioneiro. Há seis anos, Dom Erwin Kräutler, bispo do Xingu, não dá um passo no Brasil sem estar sob a escolta dos quatro policiais que se alternam para proteger sua vida.
Perto de completar 73 anos, Dom Erwin, que acolheu e depois enterrou a missionária assassinada Dorothy Stang, vive na mira de pistoleiros. Homens contratados por gente graúda para calar uma voz que há quase meio século eleva o tom na defesa dos mais pobres e dos mais frágeis, dos indígenas, dos ribeirinhos e dos extrativistas da Amazônia. Dom Erwin tem escrito, com rara coerência, um capítulo crucial de uma história pouco contada no Brasil: o papel da Igreja Católica, especialmente a dos religiosos ligados à Teologia da Libertação e às comunidades eclesiais de base, na proteção dos povos da floresta – e da própria Amazônia – a partir da segunda metade do século XX.
A maioria das etnias indígenas e das comunidades amazônicas que conquistaram direitos e terras nas últimas décadas deve parte de sua organização aos setores mais progressistas da Igreja Católica. Assim como parte das lideranças políticas que hoje influenciam os rumos do país surgiu na atuação de base da Igreja. Isso vai muito além da religião – é História. E uma história cujo sentido as alas mais conservadoras da própria Igreja preferem enfraquecer. Neste capítulo, Dom Erwin, capaz de falar tão bem o grego clássico quanto a língua dos Kayapó, é um dos protagonistas mais fascinantes.
E resistente. A cada ano, apesar da idade avançada e das dores na coluna, ele visita 15 paróquias do Xingu. Ao alcançá-las, peregrina pelas comunidades dos cafundós. Dorme no barco, dorme em rede. Acostumou-se tanto à dieta local, que fica feliz por comer peixe no almoço e no jantar, de segunda a segunda. É adorado pelo povo mais pobre – e odiado sem reservas por parte da elite paraense, que o ataca também pela imprensa de Belém do Pará.
Desde a decisão de Lula, e agora de Dilma Rousseff, de arrancar Belo Monte do papel, o quase lendário bispo do Xingu tem feito uma oposição incansável contra a hidrelétrica que provoca controvérsia dentro e fora do Brasil. Por causa dela, tornou-se uma presença incômoda para setores do governo e do PT que um dia apoiou – inclusive com o seu voto. Incômoda, especialmente, porque é difícil destruir a reputação de um bispo que mantém a coerência desde a ditadura militar em uma das regiões mais conflagradas do país, ajudou a escrever os artigos da Constituição de 1988 que garantem os direitos indígenas e não recuou nem mesmo diante da ameaça de perder a própria vida.
Nesta entrevista, Dom Erwin diz o que pensa contra antigos aliados com o mesmo desassombro com que denunciou grileiros e estupradores no passado recente. Acusa o PT de “traidor” – e diz que alguns petistas são “fanáticos religiosos”. Afirma que Lula e Dilma implantaram uma “ditadura civil” ao “desrespeitar os direitos indígenas assegurados na Constituição”. E afirma que Lula passará para a História como “o presidente que destruiu a Amazônia e deu o golpe nos povos indígenas”.
Às vésperas da Rio + 20, o depoimento de Dom Erwin Kräutler abre uma janela para a compreensão da história contemporânea. A entrevista a seguir foi feita na casa do bispo, em Altamira, com os policiais militares que o protegem do lado de fora da porta, mas atentos. Os quatro policiais demonstram uma preocupação que transcende o dever: adoram Dom Erwin, que conhece suas mulheres e filhos e escuta suas aflições de cada dia.
Em três horas de conversa, Dom Erwin não evitou nenhuma pergunta. Vale a pena abrir um espaço para escutar com atenção um homem capaz de apontar as contradições e ampliar a complexidade do momento estratégico vivido pelo Brasil, no qual as escolhas tomadas hoje determinarão o que seremos amanhã.