segunda-feira, 3 de novembro de 2008

OS OBJETOS


Conto de Lygia Fagundes Telles













Finalmente posou o olhar no globo de vidro e estendeu a mão.
– Tão transparente. Parece uma bolha de sabão, mas sem aquele colorido refletindo a janela, tinha sempre uma janela nas bolhas que eu soprava. O melhor canudo era o de mamoeiro. Você também não brincava com bolhas? Hein, Lorena?
Ela esticou entre os dedos um longo fio de linha vermelha preso à agulha. Deu um nó na extremidade da linha e, com a ponta da agulha, espetou uma conta da caixinha aninhada no regaço. Enfiava um colar.
– Que foi?
Como não viesse a resposta, levantou a cabeça. Ele abria a boca, tentando cravar os dentes na bola de vidro. Mas os dentes resvalavam, produzindo o som fragmentado de pequenas castanholas.
– Cuidado, querido, você vai quebrar os dentes!
Ele rolou o globo até a face e sorriu.
– Aí eu compraria uma ponte de dentes verdes como o mar com seus peixinhos ou azuis como o céu com suas estrelas, não tinha uma história assim? Que é que era verde como o mar com seus peixinhos?
– O vestido que a princesa mandou fazer para a festa.
Lentamente ele girou o globo entre os dedos, examinando a base pintalgada de cristais vermelhos e verdes.
– Como um campo de flores. Para que serve isto, Lorena?
– É um peso de papel, amor.
– Mas se não está pesando em nenhum papel – estranhou ele, lançando um olhar à mesa. Pousou o globo e inclinou-se para a imagem de um anjo dourado, deitado de costas, os braços fortes. – E este anjinho? O que significa este anjinho?
Com a ponta da agulha ela tentava desobstruir o furo da conta de coral. Franziu as sobrancelhas.
– É um anjo, ora.
– Eu sei. Mas para que serve? – insistiu. E apressando-se antes de ser interrompido: – Veja, Lorena, aqui na mesa este anjinho vale tanto quanto este peso de papel sem papel ou aquele cinzeiro sem cinza, quer dizer, não tem sentido nenhum. Quando olhamos para as coisas, quando tocamos nelas é que começam a viver como nós, muito mais importantes que nós, porque continuam. O cinzeiro recebe a cinza e fica cinzeiro, o vidro pisa o papel e se impõe, esse colar que você está enfiando... É um colar ou um terço?
– Um colar.
– Podia ser um terço?
– Podia.
– Então é você que decide. Este anjinho não é nada, mas se toco nele vira anjo mesmo, com funções de anjo. – Segurou-o com força pelas asas. – Quais são as funções de um anjo?
Ela deixou cair na caixa à conta obstruída e escolheu outra. Experimentou o furo com a ponta da agulha.
– Sempre ouvi dizer que anjo é o mensageiro de Deus.
– Tenho então uma mensagem para Deus – disse ele e encostou os lábios na face da imagem. Soprou três vezes, cerrou os olhos e moveu os lábios murmurejantes. Tateou-lhes as feições como um cego. – Pronto, agora sim, agora é um anjo vivo.
– E o que foi que você disse a ele?
– Que você não me ama mais.
Ela ficou imóvel, olhando. Inclinou-se para a caixinha de contas.
– Adianta dizer que não é verdade?
– Não, não adianta. – Colocou o anjo na mesa. E apertou os olhos molhados de lágrimas, de costas para ela e inclinando para o abajur. – Veja, Lorena, veja... Os objetos só têm sentido quando têm sentido, fora disso... Eles precisam ser olhados, manuseados. Como nós. Se ninguém me ama, viro uma coisa ainda mais triste do que essas, porque ando, falo, indo e vindo como uma sombra, vazio, vazio. É o peso de papel sem papel, o cinzeiro sem cinza, o anjo sem anjo, fico aquela adaga ali fora do peito. Para que serve uma adaga fora do peito? – perguntou e tomou a adaga entre as mãos. Voltou-se, subitamente animado. – É árabe, hein, Lorena? Uma meia-lua de prata tão aguda... Fui eu que descobri esta adaga, Lembra? Estava na vitrina, quase escondida debaixo de uma bandeja, lembra?
Ela tomou entre os dedos o fio de coral e balançou-o num movimento de rede.
– Ah, não fale nisso! Se você soubesse o quanto eu gostei daquela bandeja, acho que nunca mais vou gostar de uma coisa assim... Se pudesse, tomava já um avião, voltava lá no antiquário do grego barbudo e saía com ela debaixo do braço. As alças eram cobrinhas se enroscando em folhas e cipós, umas cobrinhas com orelhas, fiquei apaixonada pelas cobrinhas.
– Mas por que você não comprou?
– Era caríssima, amor. Nossos dólares estavam no fim, o pouco que restou só deu para essas bugigangas.
– Fale baixo, Lorena, fale baixo! – suplicou ele num tom que a fez levantar a cabeça num sobressalto. Tranqüilizou-se quando o viu sacudindo as mãos, afetando pânico. – Chamar a adaga e o anjo de bugigangas, que é isso! O anjo vai correndo contar para Deus.
– Não é um anjo intrigante – advertiu, encarando-o. – E antes que me esqueça, você diz que se ninguém nos ama, viramos coisa fora de uso, sem nenhuma significação, certo? Pois saiba o senhor que muito mais importante do que sermos amados é amar, ouviu bem? É o que nos distingue desse peso de papel que você vai fazer o favor de deixar em cima da mesa antes que quebre, sim?
– O vidro já está ficando quente – disse e fechou o globo nas mãos. Levou-o ao ouvido, inclinou a cabeça e falou brandamente como se ouvisse e foi dizendo: – Quando eu era criança, gostava de comer pasta de dente.
– Que marca?
– Qualquer marca. Tinha uma marca com sabor de hortelã, era ardido demais e eu chorava de sofrimento e gozo. Minha irmãzinha de dois anos comia terra.
Ela riu.
– Que família!
Ele riu também, mas logo ficou sério. Sentou-se diante dela, juntou os joelhos e colocou o globo nos joelhos. Cercou-os com as mãos em concha, num gesto de proteção. Inclinou-se, bafejando sobre o globo.
– Lorena, Lorena, é uma bola mágica!
Voltada para a luz, ela enfiava uma agulha. Umedeceu a ponta da linha, ergueu a agulha na altura dos olhos estrábicos na concentração e fez a primeira tentativa. Falhou. Mordiscou de novo a linha e com um gesto incisivo foi aproximando a linha da agulha. A ponta endurecida do fio varou a agulha sem obstáculo.
– A cópula.
– Que foi? – perguntou ela, relaxando os músculos. Voltou-se satisfeita para a caixa de contas. – Que foi, amor?
Ele cobriu o globo com a mãos. Bafejou sobre elas.
– É uma bola de cristal, Lorena – murmurou com voz pesada. Suspirou gravemente. – Por enquanto só vejo assim uma fumaça, tudo tão embaçado...
– Insista, Miguel. Não está clareando?
– Mais ou menos... espera, a fumaça está sumindo, agora está tão mais clara, puxa, que nítido! O futuro, Lorena, estou vendo o futuro! Vejo você numa sala... É esta sala! Você está de vermelho, conversando com um homem.
– Que homem?
– Espera, ele ainda está um pouco longe... Agora vejo, é seu pai. Ele está aflito e você procura acalma-lo.
– Por que está aflito?
– Por que ele quer que você me interne e você está resistindo, mas tão sem convicção. Você está cansada, Lorena querida, você está quase chorando e diz que estou melhor, que estou melhor...
Ela endureceu a fisionomia. Limpou a unha com a ponta da agulha.
– E daí?
– Daí seu pai diz que não melhorei coisa nenhuma, mas que há esperança – repetiu ele, inclinando-se, as mãos nos olhos em posição de binóculo postado no globo. – Espera, está entrando alguém de modo tão esquisito... eu, sou eu! Estou entrando de cabeça para baixo, andando nas mãos, plantei uma bananeira e não consegui voltar.
Ela enrolou o fio de contas no pescoço, segurando firme a agulha para as contas não escaparem. Sorriu, alisando as contas.
– Plantar bananeira justo nessa hora, amor? Por que você não ficou comportadinho? Hum?... E o que foi que o meu pai fez?
– Baixou a cabeça para não me ver mais. Você então me olhou, Lorena. E não achou nenhuma graça em mim. Antes você achava.
Vagarosamente ela foi recolhendo o fio. Deslizou as pontas dos dedos pelas contas maiores, alinhando-as.
– Fico sempre com medo que você desabe e quebre o vaso, os copos. E, depois, cai tudo dos seus bolsos, uma desordem.
Ele recolocou o peso na mesa. Encostou a cabeça na poltrona e ficou olhando para o teto.
– Tinha um lustre na vitrina do antiquário, lembra? Um lustre divertido, cheio de pingentes de todas as cores, uns cristaizinhos balançando com o vento, blim-blim... Estava ao lado da gravura.
– Que gravura?
– Aquela já carunchada, tinha um nome pomposo, Os Funerais do Amor, em italiano fica mais bonito, mas não sei mais como é em italiano. Era um cortejo de bailarinos descalços, carregando guirlandas de flores, como se estivessem indo para a uma festa. Mas não era uma festa, estavam todos tristes, os amantes separados e chorosos atrás do amor morto, um menininho encaracolado e nu, estendido numa rede. Ou num coche?... Tinha flores espalhadas pela estrada, o cortejo ia indo por uma estrada. Um fauno menino consolava a amante tão pálida, tão dolorida...
Ela concentrou-se.
– Esse quadro estava na vitrina?
– Perto do lustre que fazia blim-blim.
– Não sei, mas assim como você descreveu, é triste demais. Juro que não gostaria de ter um quadro desses em casa.
– Mas triste ainda era o anão.
–Tinha um anão na gravura?
– Não, ele não estava na gravura, estava perto.
– Mas... Era um anão de jardim?
– Não, era um anão de verdade.
– Tinha um anão na loja?
– Tinha. Estava morto, um anão morto, de smoking, o caixão estava na vitrina. Luvas brancas e sapatinhos de fivela. Tudo nele era brilhante, novo, só as rosas estavam velhas. Não deviam ter posto rosas assim velhas.
– Eram rosas brancas? – perguntou ela, guardando o fio de contas na caixa. Baixou a tampa, com um baque metálico. – Eram rosas brancas?
– Brancas.
– As rosas brancas murcham mais depressa. E fazia calor.
Ele inclinou a cabeça para o peito e assim ficou, imóvel, os olhos cerrados, as pálpebras crispadas. O cigarro apagou-se entre seus dedos.
– Lorena...
– Hum?
– Vamos tomar um chá. Um chá com biscoitos, quero biscoitos.
Ela levantou-se. Fechou o livro que estava lendo.
– Ótimo, faço o chá. Só que o biscoito acabou, posso arrumar umas torradas, bastante manteiga, bastante sal. Hum?
– Eu vou comprar os biscoitos – disse ele, tomando-lhe a cabeça entre as mãos. – Minha linda Lorena. Biscoitos para a linda Lorena.
Ela desvencilhou-se rápida.
–Vou pôr água para ferver. Pega o dinheiro, está na minha bolsa.
– No armário?
– Não, em cima da cama, uma bolsa verde.
Ele foi ao quarto, abriu a bolsa e ficou olhando para o interior dela. Tirou o lenço manchado de ruge. Aspirou-lhe o perfume. Deixou cair o lenço na bolsa, colocou-a com cuidado no mesmo lugar e voltou para a sala. Pela porta entreaberta da cozinha pôde ouvir o jorro da torneira. Saiu pisando leve. No elevador, evitou o espelho. Ficou olhando para os botões, percorrendo com o dedo um por um até chegar ao botão preto com a letra T invisível de tão gasta. O elevador já descia e ele continuava com o dedo no botão, sem apertá-lo, mas percorrendo-o num movimento circular, acariciante. Quando ela gritou, só seus olhos se desviaram na direção da voz vindo lá de cima e tombando já meio apagado no poço.
– Miguel, onde está a adaga?! Está em ouvindo, Miguel? A adaga!
Ela abriu a porta do elevador.
– Está comigo.
O porteiro ouviu e foi-se afastando de costas. Teve um gesto de exagerada cordialidade.
– Uma bela noite! Vai passear um pouco?
Ele parou, olhou o homem. Apressou o passo na direção da rua.
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