sexta-feira, 14 de outubro de 2011

Uma grande Dama da Literatura Brasileira

Lygia Fagundes Telles


*Entrevista Publicada originalmente por Ana Lúcia Vasconcelos* no Cronópios em março de 1986, quando o livro ainda misterioso (As Horas Nuas) estava em fase de finalização.


Sei que você está preparando um novo livro. Será que poderia adiantar alguma coisa em primeiríssima mão?
Lygia Fagundes Telles - Olha Ana, quando eu escrevo, quando estou apaixonada por um livro, prefiro não falar nada. É quando você está apaixonada por um homem, eu fico emocionada com o meu amor. Eu falo neste amor, seja um homem, seja um livro depois que passa. (Risadas) Quando eu estava apaixonada, eu me apaixonei tão poucas vezes, mas enfim, as vezes que eu me apaixonei, paixão humana - eu não conseguia falar, nem sequer com o objeto amado. (Mais risadas).

Mas ele sabia pelo menos?
Lygia - Sabia só que era uma coisa mais de silêncio... A linguagem do silêncio é mais expressiva, mais profunda. Então Ana Lúcia assim se passa com a criação literária. Eu não consigo falar sobre este romance que estou terminando.

Mas você diria que este romance tem alguma novidade em relação aos seus livros anteriores?
Lygia - Ah sim, exatamente. Meus romances anteriores: Ciranda de Pedra, Verão no Aquário e As Meninas são romances que tratam de personagens jovens. E este que estou escrevendo agora trata de uma mulher em plena maturidade, alta maturidade como ela diz. Têm jovens também, mas a personagem principal é uma mulher madura - ela está se aproximando dos setenta. Ela chama de maturidade, mas a amiga diz: não, é velhice. Mas ela mesma não diz, ela escamoteia.

E no mais...
Lygia - No mais tem também a linguagem. Neste romance eu crio uma forma diferente. Eu adaptei uma linguagem de acordo com a trama e as personagens.

Daí então o segredo que você quer guardar?
Lygia - Sim e também porque estou enredada com as personagens, com a trama, enfim estou muito enrolada em mim mesma.

Lygia, gostaria que você falasse do seu processo criativo. Como é que surge a idéia do livro, do conto, do romance para você, desde o embrião até a coisa acabada?
Lygia - É muito complicado, eu não estou fazendo mistério excessivo não, mas é muito misterioso. Comigo, não sei se com outros escritores...

Parece que a Clarice Lispector escrevia em papéis pequenos e depois montava o quebra-cabeça. Você como faz?
Lygia - É eu também tenho muito este processo. Escrevo em páginas, tomo notas. Às vezes estou num taxi e minha personagem diz uma coisa que eu acho que deve ser gravada e eu tiro o caderninho e tomo nota. É uma espécie de colcha de retalhos, onde vou juntando mas por um mistério que eu não explico. As partes vão se buscando, estas personagens, essas frases, essas idéias vêm como que buscando e se montam, olha é tão estranho. São as coincidências na criação literária. Eu dou muito valor ao grão de acaso, ao grão da loucura e ao grão da coincidência. As peças coincidentes se buscam como na nossa própria vida, umas buscam os outros. Eu sou amiga de pessoas que eu amo e que vou amar até a morte porque eu busquei essas pessoas e elas me buscaram.

São as afinidades...
Lygia - São as afinidades, são as coincidências. São pessoas que gostam de mim, como eu gosto delas. Eu as descobri e elas me descobriram. Assim também na trama de um livro, de um texto literário.

Voce diria que vem primeiro: a idéia ou a personagem?
Lygia- Em geral as personagens vêm em primeiro lugar. Elas não têm vida própria ainda, não tem caráter, fisionomia própria, mas ela já vem se introduzindo, se instalando e umas puxam as outras. Aí vêm as coincidências, com o grão de acaso de loucura. Fernando Pessoa tem um verso que eu gosto muito: “Não procures nada que tudo é oculto.” Tudo é oculto.

Você escreve direto à máquina? (naquele tempo não havia computadores)
Lygia - Não eu escrevo muitas vezes em blocos, em folhas avulsas, à caneta, uso canetas de várias cores. Às vezes eu ponho uma tinta vermelha para uma personagem. É uma forma de eu visualizar a papelada dentro das pastas. (Risadas)

Quer dizer, é uma medida prática. E você corrige muito?
Lygia - Demais, demais. Eu gostaria de me corrigir como eu corrijo meus textos. Não consigo me corrigir, já estou montada, armada. Eu gostaria de ser muito melhor, muito mais caridosa mais generosa. Gostaria de ser muitas coisas mais. Mas já estou estruturada, inacessível.

Será?
Lygia - Gostei deste será, isso é muito bonito. Este será me deu esperança de repente. Eu sei que posso mudar. É isso mesmo. Só os idiotas não mudam. Somos mutantes, para o bem ou para o mal.

Sei que você gosta de andar muito, inclusive a Hilda (Hilst) já falou disso. Ela te acha elétrica, super dinâmica e a admiração é maior porque ela se julga exatamente o oposto disso.
Lygia - Olha, eu até tenho uma preocupação com relação a isso. Eu estive lendo que várias pessoas que enlouqueceram (risadas) incluindo a mulher do Scott Fitzgerald...

A Zelda...
Lygia - A Zelda Fitzgerald andava, fazia um bem enorme para ela, até que ela começou a andar dia e noite. (Risadas)

Aí começou a ficar grave.
Lygia - Mas eu ando muito...

E por onde você gosta de andar em São Paulo?
Lygia - Eu ando por aí pelo Jardim América onde tem poucas pessoas na rua, as casas é como se não tivessem janelas, você não vê ninguém, jardins fechados, você só vê cachorro, gente você não vê. E como eu gosto de bicho eu vejo cachorro a beça, ando a beça, e volto para minha casa renovada como a Bíblia manda. Estou nascendo outra vez. Porque eu moro ali perto, eu moro no ultimo quarteirão da Consolação entre a Oscar Freire e a Estados Unidos. Então eu vou por ali tem um clube que eu freqüento que é o Harmonia ali na Rua Canadá.

E por falar em São Paulo você gosta da cidade? Imaginaria viver em outro lugar?
Lygia - Agora é tarde. Moro aqui desde que nasci. Nasci e passei minha infância em pequenas cidades do interior de São Paulo: Sertãozinho, Itatinga, Assis, Descalvado. Minha infância, meus anos verdes passei nessas cidades e desde a infância eu guardo lembranças tão importantes. Olha eu tenho viajado tanto, fui parar na China, na Pérsia, eu digo Pérsia na maneira antiga, não Irã, a Pérsia, Sherazade...

Que maravilha...
Lygia - Viajei demais, fui para todos os lugares possíveis, mas devo dizer o seguinte: talvez nos momentos meus de insegurança e eu tenho muitos momentos de insegurança, de angústia, nesta hora não me lembro da Pérsia, do caviar persa, da China, dos templos lindos de ouro e jade, não me lembro dessas viagens, eu me lembro do quintal da minha infância. Eu menina, os cachorros as mangueiras, minha força - eu digo minhas reservas florestais. E a estas reservas eu recorro muitas vezes.

Mas você gosta de São Paulo?
Lygia - Estou gostando porque está ficando uma cidade que estou quase não reconhecendo. A cidade mudou tanto. Adolescente eu ia ao bairro da Liberdade onde meu avô morava na Rua Fagundes. Então é assim as coisas mudam, as coisas estavam arrumadas, estruturadas. Eu confesso que tenho certa nostalgia daquele tempo, da casa do meu avô Benevenuto de Azevedo Fagundes, coronel da Guarda Nacional do Imperador e justamente o nome da rua em sua homenagem.

De onde vem Fagundes? Portugal?
Lygia - O meu antepassado Fagundes era um grande descobridor, fidalgo português de Viana do Castelo - Portugal sim, o João Álvares Fagundes descobridor e navegador do século XVI. Aliás, estou contanto isso a você porque estou tentando explicar uma coisa que tento explicar para mim mesma que é esta minha vontade de estrada, do mar, do horizonte que talvez venha deste meu antepassado. Ele não sossegava, só sossegou para morrer. Então talvez toda esta minha vontade de viagem, de ir além do que estou vendo, tudo isso talvez esteja ligado a este meu antepassado que descobriu tanta coisa, mas morreu pobre e doente e muito triste, muito desiludido com os homens, mas reconciliado com Deus.

Sei que você viaja muito também para fora do Brasil para participar de palestras, seminários de escritores. Onde esteve nos últimos anos?
Lygia - Ano passado estive na Alemanha num seminário em companhia do Ignácio de Loyola Brandão, Márcio de Souza, João Ubaldo Ribeiro, estivemos em sete cidades falando da literatura brasileira. Todos nós temos livros publicados na Alemanha. Em 1984 estive com o Ivan Ângelo, Haroldo de Campos, Loyola nos Estados Unidos-Nova York, Washington. Estivemos também na Universidade de Georgetown.

O que foi isso? Um Congresso de escritores latino-americanos?
Lygia - Não, havia lá também portugueses. Era um Congresso de Escritores de Expressão Portuguesa. E agora em setembro vou para a Alemanha para a Universidade de Hamburgo para um Seminário com a participação de cinqüenta escritores de todo o mundo. Vão ainda o João Ubaldo Ribeiro, João Cabral de Mello Neto, Ivan Ângelo e Ariano Suassuna. E recentemente também estive em Portugal quando a Cremilda Medina foi lançar o livro A Posse da Terra que é da maior importância porque são perfis de mais de cinqüenta escritores brasileiros. E ela fez o mesmo com escritores portugueses. E agora este ano vai haver outro Congresso de Escritores de Expressão Portuguesa em Portugal que quero muito que a Hilda vá.

E se você tivesse que escolher uma cidade no exterior para morar, qual delas escolheria? Que cidades te encantaram particularmente lá fora?
Lygia - Eu tenho paixão por Barcelona, Lisboa - ah eu amo Lisboa, pois pois. E fiquei apaixonado na Alemanha por uma cidade chamada Heidelberg... e depois tem Paris.

E quem não fica apaixonado por Paris?
Lygia - Ah agora me lembro, veja como citar é perigoso. Eu ia me esquecendo de uma cidade pela qual fiquei apaixonada ardentemente e onde fui correspondida, porque meu livro saiu lá e a edição esgotou: Praga. E quando saiu meu livro eu disse: agora Kafka vai poder me ler...

Onde ele estiver...
Lygia - Onde ele estiver. Eu gostei muito também de Xangai, ambiciosa, a corrompida Xangai. Quando fui para a China logo depois da Revolução de Mao Tse Tung e então Pequim era um quartel mas Xangai com seu charme eu adorei. E gostei muito de uma cidade da Pérsia onde estive com Paulo Emilio (Salles Gomes com quem foi casada como todos sabem), aliás, eu estive com ele em quase todos esses lugares, uma pequena cidade pela qual me apaixonei muito e onde está a tumba de Ciro e que se chama Pazárgada.

Quer dizer que Pasárgada existe?
Lygia - Existe e eu descobri viajando porque é só pisando o chão que você descobre as cidades. Mapa não adianta nada. Então eu estive em Pasárgada que se diz pesado, arrastando o erre. E comecei a chorar porque eu disse: a Pasárgada do Bandeira existe.

Você chegou a conviver com o Manuel Bandeira?
Lygia - Sim foi um grande e querido amigo e veja só: nós nascemos no mesmo dia 19 de abril. Agora (em relação àquela data, 1986) em 19 de abril é o centenário de Bandeira.

Você o conheceu quando?
Lygia - Ah em plena juventude desvairada, eu estava na Faculdade de Direito...

Lindíssima...
Lygia - Eu era bonitinha com aquela boina. Meu primeiro chá com Bandeira foi naquela confeitaria Colombo e outro naquela outra que fica na Cinelândia muito elegante. E tomamos chá com waffles e geléia de abricot e ele muito galante me fez uns versinhos: “Salve o dia 19/em que nascemos os dois? Eu no século passado/Lygia um século depois.”

Agora mudando completamente de assunto: o que você achou do pacote econômico do governo? Do tal choque heterodoxo?
Lygia - Eu estou ainda em estado de profunda perplexidade, estou obnubilada (risos). Estou deixando assentar a poeira fora e dentro de mim mesma. Agora que estou com muita esperança, porque sou visceralmente otimista. Às vezes eu caio em profunda depressão, mas depois levanto e ressurjo das cinzas. Eu quero acreditar. Eu sou uma jogadora, eu jogo com as palavras, eu arrisco. E agora estou arriscando minha esperança nesta revolução.

Você acredita que seremos mais felizes com o Cruzado e companhia?
Lygia - Podemos ser mais felizes. Eu vi uma coisa extraordinária. Eu vi o meu povo que eu amo e que todos dizem que era apático que era morno, eu vi meu povo vibrando. Só vi este povo vibrar assim na dor, quando morreu o Tancredo Neves e nas Diretas Já.

Há uma coisa sobre a qual todos que gostam de ler têm curiosidade incrível. É o dia a dia do escritor. Como é o teu? Você se levanta a que horas. Escreve pela manhã, à tarde?Conte com detalhes.
Lygia - Eu há pouco tempo resolvi fazer o que o Rubem Braga faz: ele se levanta de madrugada para escrever. Eu comecei a levantar de madrugada e estou deslumbrada. Isso porque o cotidiano é uma coisa medonha: o imposto de renda, a empregada que fica doente, o gato, eu amo dois gatos que estão comigo há trezentos anos. Então é o gato que fica doente, a torneira, a pia, aquelas coisas que te consomem. O cotidiano te arranca completamente daquele estado contemplativo. Eu sou uma contemplativa, eu queria ir pro convento. Aliás, hoje os conventos estão muito agitados (risos) já não dá mais. Mas nos tempos dos conventos da Idade Média quando eles eram tranqüilos. Mas sou obrigada a sair da minha contemplação para poder dar conta deste cotidiano. Então agora descobri na madrugada eu produzo muito mais. Baixinho eu ponho meu toca discos, meu Bach, meu Beethoven, Mozart, eu tenho paixão por Mozart, os noturnos de Chopin, então baixinho eu fico ouvindo aquela música, só eu acordada, só eu no mundo, eu tenho vontade de chorar. Mas também tem que deitar cedo. Não me façam propostas desonestas para horas tardias, acabou a boemia. Nove horas estou indo para a cama.

E você acorda que horas?
Lygia - Cinco e meia. Escrevo até as oito que é quando a empregada levanta e faz o café. Acendo meu cigarro e tal e não mexo mais em nada. As oito tomo meu café, vou andar, fazer minha ginástica que faço todos os dias. E aí começa tudo de novo. Estou pensando em montar um estúdio, sem telefone, sem ninguém para poder trabalhar mais tranqüila, para escrever que é a coisa que eu sei fazer.

Lygia o que você está lendo atualmente? Aliás, que tipo de literatura você prefere? Ficção, ensaios?
Lygia - Eu quando escrevo ficção não gosto de ler ficção. Gosto de ler ensaios. Estou lendo um ensaio de Koestler e estou relendo o Becker - A Negação da Morte. Gosto muito de biografias, de história. Há um livro da minha juventude - La Cité Antique do Fustel de Coulanges, que gosto muito e sempre releio para ver os costumes da antiguidade, o sentimento do tempo transcorrido, o sentimento das gerações que passaram e que virão. De repente eu me sinto como um grão de areia, sem a mínima importância e isso é lindo. O que é importante o que pode ser importante é a minha palavra. Então este sentimento da transitoriedade, de quanto somos provisórios, este sentimento do tempo vem muito agudo quando eu leio história: os crimes, os amores, as políticas, as corrupções, enfim a condição humana. Ao mesmo tempo eu tenho o sentimento de que o homem é igual sempre e que ele é diferente sempre e que ele vai passar. E que outros virão. Este oito infinito é a expressão da nossa finitude e da nossa eternidade. Até que venha alguém e aperte o botão. Mas eu creio, eu também leio a Bíblia, eu sou uma espiritualista, eu creio que o homem vai pairar sobre todas as coisas, ele vai sobreviver.
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