domingo, 8 de março de 2009

A guerra dos Raimundos na terra de ninguém

Por Jota Ninos
Jornalista

Uma incrível coincidência de nomes pode ser um atrativo a mais no já tão conturbado processo eleitoral suplementar de Santarém, caso ele realmente chegue ao fim no dia 5 de abril. Depois de um ciclo político de 10 anos que eu sempre chamo de Ron-Ron (de RONan Liberal e RONaldo Campos), e do ainda combalido ciclo Ma-Ma (de Lira MAia e Maria do Carmo MArtins), quem sabe tenhamos um novo ciclo com nomenclaturas idênticas, começando com uma guerra nesta terra que agora é de ninguém?

E ninguém atentou que, coincidentemente, os três candidatos a prefeito não assumem publicamente seus nomes comuns (e em comum): RAIMUNDO! O candidato do PT é o RAIMUNDO Inácio Campos Corrêa, contra o candidato do PSDB, Alexandre RAIMUNDO de Vasconcelos Wanghon e o tertius RAIMUNDO Márcio Pinto de Jesus, do PSOL. É muito Raimundo para uma eleição só!

Nada contra os Raimundos, afinal estamos na terra do São Raimundo e do São Francisco. Terra do antagonismo entre os dois santos representantes dos bairros da Aldeia (São Raimundo) e da Prainha (São Francisco). Terra do antigo clássico Rai-Fran.

Coincidentemente, também, a chapa do PSDB tem uma dupla Rai-Fran (o vice do Alexandre Raimundo é FRANCISCO Nélio Aguiar). Nesse quesito, Inácio Raimundo perde, pois seu vice é apenas um Zé Antonio, mas se levarmos em conta que há outro Inácio que se deu bem com um Zé a tiracolo, lá em Brasília…. Já o Raimundo Márcio tem um vice com nome meio francês, meio caboclo: Gean Carlos (o popular João Carlos, do francês Jean-Charles…).

Mas voltemos aos Raimundos, que é o que nos interessa. Supondo que aconteçam as tais eleições (há quase uma certeza no ar de que a ministra de nome inglês – Ellen Gracie Northfleet – vai acatar o pedido de Maria do Carmo e dar-lhe a oportunidade de finalmente sentar no trono municipal), haveria diferença entre estes Raimundos ou a coincidência onomástica se estenderia aos seus arquétipos ideológicos e espectros metodológicos?

Pode-se dizer que entre Raimundo Inácio e Alexandre Raimundo haja mais coincidências do que divergências. Mas quando se junta o Raimundo Márcio ao trio, as diferenças ainda são uma incógnita por se conhecer muito pouco do terceiro, mas provavelmente devem ser abissais, tanto ideologicamente quanto metodologicamente falando.

Convivi alguns anos ao lado de Raimundo Inácio, quando atuava no PT, do qual me desfiliei. Com relação ao Alexandre Raimundo, atuei bem próximo quando minha empresa de comunicação assessorou a Prefeitura de Santarém nos seus oito anos de vice. Quanto ao Raimundo Márcio, venho conhecendo recentemente nos corredores do Fórum de Santarém, onde trabalhamos juntos.

Nas próximas linhas, vou tentar desatar, ou enrolar, os nós entre eles, pelo pouco que conheço de cada um pela convivência pessoal e de informações em currículos, internet ou de terceiros.

A bateria de Maria
Raimundo Inácio é o típico caboclo da Vila do Aritapera que veio para a cidade e conseguiu seu lugar ao sol. Microempresário bem sucedido do ramo das baterias, foi um das centenas de pupilos desgarrados da batina(?) de padre Edilberto Sena, o grande criador de ONGs e de lideranças políticas de esquerda.

Antes de lidar com baterias, Raimundo Inácio era pura energia e fiel escudeiro de Edilberto nos movimentos ambientais como o GDA – Grupo de Defesa da Amazônia, ONG precursora da luta ambiental em Santarém que liderou o movimento contra o derramamento de mercúrio, no rio Tapajós, na década de 1980 (hoje, o GDA sobrevive apenas como um telecentro e biblioteca de temática ambientalista).

Raimundo Inácio atuou também no MEB – Movimento de Educação de Base, projeto educativo da Rádio Rural, onde conheceu e se casou com a pedagoga Fernanda Pimentel. Dentro do PT era o lugar-tenente da tendência Alternativa Democrática (AD), inspirada nos sonhos revolucionários do nosso padre radical que tenta, hoje, convencer os ingleses de não comer carne para salvar a Amazônia (!).

Ao lado de outras lideranças edilbertianas (e também já desgarradas de sua batina) como Socorro Pena, Everaldo Portela e Marco Aurélio, Inácio Raimundo era a voz da sensatez, do equilíbrio dentro da AD.

Coordenou as campanhas vitoriosas a vereador de Socorro (88) e Marquinho (92). Foram essas qualidades que Everaldo Martins detectou e fez de tudo para cooptar para o seu projeto de poder. Everaldo arrebatou primeiramente Socorro Pena (com quem se casou), que era a alma dos movimentos edibertianos. Anos depois, através de outra ONG ambientalista (o IPAM – Instituto de Pesquisas Ambientais da Amazônia) promoveu o reencontro de Socorro e Fernanda (esposa de Inácio), iniciando (ou “inaciando”?) o namoro com o Raimundo das Baterias, aliás, Inácio das Baterias.

Assim, Raimundo Inácio tornou-se fiel escudeiro do grupo Martins e coordenou as campanhas de Maria em 1996 para prefeitura (morreu na beira) e 1998 para deputada estadual (vitória!). Ganhou reconhecimento do grupo e em 2000 foi testado como candidato a vereador, mas morreu abraçado com o principal antagonista de Everaldo, Pedro Peloso, que não conseguiu se reeleger (naquele ano acabou sobrando para o desconhecido Livaldo Sarmento, vereador de único mandato conquistado nas urnas, como é a sina dos petistas santarenos).

Em 2002, Raimundo Inácio voltou a coordenar a campanha de Maria ao Governo do Estado e novamente quase chegou lá, mas foi em 2004 que ele se realizou, com a eleição de Maria.
Como o companheiro Lula já havia chegado ao poder em 2002, Raimundo Inácio acabou indo administrar as Docas do Pará, mas acabou sendo levado para as entranhas do poder municipal, como secretário de Governo, onde passou a articular a reeleição de Maria. Em 2008, a vitória aconteceu, de novo, mas o TSE acabou jogando areia na bateria de Raimundo Inácio & Cia.

E no emaranhado de articulações, Raimundo Inácio acabou sendo a arma usada por Everaldo para mover a Rocha que tentou se interpor à frente de seu projeto. Com a remarcação da eleição e os novos prazos para desincompatibilizações, Raimundo Inácio tornou-se o candidato da coligação de 10 partidos e, caso Maria não volte esta semana ao trono, começará a corrida para torná-lo mais que um simples factóide.

Mas assim como Maria, Raimundo Inácio, se eleito for, não dará nenhum passo sem antes olhar para Everaldo. Pode-se até dizer que todo o imbróglio eleitoral acabou servindo para reforçar Everaldo Martins, já que Maria não suportava mais a influência “parasital” do irmão e ensaiava um grito do Ipiranga. Se não voltar à prefeitura e Inácio for eleito, o poder de Everaldo será ainda maior, pois Inácio é incapaz de levantar a voz contra seu grande líder, coisa que Maria, de vez em quando, ainda faz.

O cérebro de Maia
Alexandre Raimundo não tem trajetória ribeirinha, mas é fã de peixes. Sempre se perde atrás de uma montanha de acaris quando anda por aí. Esse é o único traço popular deste gigante, que sempre foi um menino-prodígio da classe média alta. Inteligente e bandalho, Alexandre Raimundo sempre foi referência nos grupos de jovens de famílias tradicionais de Santarém, que se rebelavam no início da década de 1980 contra a mesmice da disputa política entre Ronaldo Campos e Ronan Liberal.

Alexandre Raimundo chegou a participar dos encontros destes jovens que ainda militavam no antigo MDB, mas tentavam se afastar do caudilho Ronaldo Campos. Um dia o grupo viu que para chegar ao poder, o jeito era romper com aquele partido e a opção era o socialista PDT, onde Alexandre Raimundo iniciou sua trajetória política, elegendo-se vereador e presidente da Câmara, fruto de uma coligação (a famosa APS – Articulação Popular Socialista) com o PT que tinha como líderes Geraldo Sirotheau (PDT) e vice Milton Peloso (PT).

O intelectual Alexandre Raimundo formou-se cedo nas áreas de Administração e Economia, sendo líder na instalação da primeira faculdade genuinamente santarena, o ISES (Instituto Santareno de Ensino Superior), hoje incorporado às FIT (Faculdades Integradas do Tapajós). Como político, nunca gostou de atuar nas bases do partido e deixou a tarefa para Osmando Figueiredo, que passou a comandar o PDT com a morte de César Sarmento em 1992.

Como não tentou reeleição para vereador, Alexandre Raimundo tornou-se o tecnocrata por excelência, ao assumir a área de planejamento do governo Ruy Corrêa, de onde acabou saindo para ser vice de Lira Maia em 1996. Começou aí o martírio de Von. Sua personalidade foi sendo cada vez mais ofuscada pelo líder populista e demagogo, dono de um mutirão de votos.

Na condição de secretários de planejamento por 12 anos, e vários quilos de peso a mais no antigo corpo longilíneo, Alexandre Raimundo foi tornando-se cada vez mais a voz da elite local, ao casar-se com a viúva Zuíla, filha do grande empresário Francisco Coimbra Lobato. Em 2004, Alexandre Raimundo acreditava que bastava ter como cabo eleitoral o demagogo Lira Maia para chegar ao poder, mas acabou perdendo as eleições para Maria do Carmo.

As antigas amizades com os neo-petistas Martins, dos velhos encontros intelectuais regados a cerveja e música do canto de Várzea, ressurgiram na campanha de Maria do Carmo ao Governo do Estado em 2002, quando Von apoiou-a na bravata eleitoral (que quase deu certo). Essa aproximação rendeu a Von um convite para ser o candidato a prefeito com apoio do PT reeditando a antiga APS. Mas a condição era se afastar de Lira Maia, e isso Von não conseguia fazer naquele momento.

Em 2006, Alexandre Raimundo se elege deputado estadual, com apoio explícito de Maia, agora pelo PSDB, partido que mais expressa sua ideologia neoliberal. Seu discurso foi ficando cada vez mais rancoroso contra o petismo, afastando-se quase que definitivamente dos velhos amigos Martins. Mas em 2008, Alexandre Raimundo dá sinais de começar a se desvencilhar da figura nociva de Maia. Não aceita ser seu vice, apesar de apoiá-lo na campanha.

Com a cassação do registro de Maria, Alexandre Raimundo e seu partido se apressam em lançá-lo como alternativa, fechando qualquer possibilidade de aceitar ser vice numa hipotética recandidatura de Maia. Trazendo Nélio para seu lado, se credencia no mínimo a uma reeleição para deputado estadual, já sem muita influência de Maia (será?).

Mas a dobradinha Maia/Von, se não vai ser reeditada, continuará a ter reflexo sobre a biografia de Alexandre Raimundo. Hoje, tenta oxigenar seu grupo atraindo jovens ligados as mesmas elites (através do PV) que vislumbram o mesmo sonho daquele grupo de Von nos anos 1980: sair da mesmice de Maias e Martins.

O coração do PSOL
Raimundo Márcio, coincidentemente, também é um caboclo do Aritapera, só que da Boca de Cima e não da vila, como Raimundo Inácio. Professor e bacharel em Direito é um neófito na política. Foi um dos filiados do PT que, decepcionados com a performance petista pós-Mensalão, apostou na aventura da histriônica senadora Heloísa Helena, e entrou no PSOL. Seu debut na política foi liderar uma greve de professores estaduais em Santarém, no início de 2008, como presidente do Sinttep regional.

Raimundo Márcio, que ainda é solteiro, é ainda um desconhecido do grande público e não tem outra experiência administrativa, como Raimundo Inácio e Alexandre Raimundo. Sua participação na eleição de 2008 ficou aquém das expectativa de quem queria se cacifar para uma candidatura a deputado estadual em 2010. Mas a cassação do registro de Maria o recolocou no cenário político, fazendo-o liderar todas as pesquisas com revoltados eleitores diante do imbróglio eleitoral.

Os números excitaram o PSOL nacional, que não conseguiu eleger nenhum prefeito no Brasil em sua primeira aventura eleitoral no ano passado. Assim, os olhos do PSOL se arregalaram diante do que seria um novo fenômeno eleitoral nos grotões do Brasil, e apostam todas as fichas mandando uma valiosa colaboração à pequena estrutura que Raimundo Márcio teve no ano passado. Ele passa a ser o coração do PSOL local, muito embora o pequeno partido já sofra da principal doença da esquerda; a divisão em tendências. Os poucos filiados do PSOL (que dizem caber numa Kombi) se subdividem em três tendências locais (!). Ao que parece, Raimundo Márcio estaria acima destas tendências e acaba sendo o consenso entre elas.

Agora, com comitê eleitoral no centro da cidade e direito a marqueteiros do Rio Grande do Sul, Raimundo Márcio acredita que, se houver eleição, possa diminuir as distâncias numéricas contra seus adversários. Encarna o papel de Davi, só que contra dois Golias. Havendo ou não eleição, a exposição de agora pode servir-lhe pelo menos para tentar aumentar o cacife para 2010.
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